PARTE 1 -- R e f l e x ã o OS JURUNA NO ALTO - XINGU
PARTE 1 -- R e f l e x ã oOS JURUNA NO ALTO - XINGU
Por Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas
Texto apresentado em 1970 ao Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal de Goiás Goiânia - Goiás
INTRODUÇÃO
O presente trabalho, intitulado OS JURUNA NO ALTO-XINGU, compreende duas partes. Na primeira, que é a mais extensa, transcrevemos o relato que os índios nos fizeram sôbre os principais acontecimentos que tiveram lugar em sua vida, durante um período de cinquenta ou sessenta anos, isto é, do fim do século passado até a época em que estabelecemos com êles o nosso primeiro contato (1949) - Por se tratar de uma narrativa que de há muitos anos vimos ouvindo e registrando através de espontâneas comunicações feitas por vários índios, de diferentes tribos, os quais, na maioria das vêzes se exprimiam na sua própria língua, tivemos a preocupação de submetê-la a uma cuidadosa revisão. Ao fim do exame, verificando que havíamos obtido uma história homogênea e isenta de contradições, decidimos publicá-la na certeza de que representa um documento válido sôbre a movimentação dos Juruna no decorrer do período acima referido.
Na segunda parte, elaborada de forma sintética, procuramos fornecer dados relativos a certos aspectos da vida dêsses índios, incluindo, no final, uma relação de têrmos de parentesco, seguida de um pequeno vocabulário.
No conjunto, o que tivemos em mira, como preocupação primordial, foi revelar fatos e eventos reais, susceptíveis de ocorrer num processo de acomodação inter-tribal.
No presente caso, embora não se tenha dado uma acomodação no verdadeiro sentido da palavra, entre os Juruna, invasores, e área cultural do alto-Xingu, não deixou esta última de assimilar traços e recursos trazidos pelos primeiros. Não pretendendo explicar, sob todos os aspectos, a natureza e os resultados das mútuas influências havidas, desejamos, pelo menos, frisar que se deve aos Juruna a introdução na área alto-xinguana da Importante cultura da banana, batata-doce, cana, abóbora, melancia, mamão e ainda a transmissão do arco quadrangular e da canoa de madeira, juntamente com as respectivas técnicas de fabricação.
Finalmente, queremos lembrar que ao compor êste trabalho de caráter prévio, destinado às pessoas informadas sôbre o alto-Xingu como área indígena, sentimo-nos desobrigados de acrescentar-lhe notas explicativas relacionadas com a localização atual e passada das tribos, a situação geográfica dos rios, bem como outros esclarecimentos que seriam indispensáveis ao leitor comum.
Há cem anos, aproximadamente, constituíam ainda os índios Juruna uma poderosa "nação" que dominava o baixo curso do rio Xingu, embora já houvessem, nessa altura, sofrido a ação desajustadora das expedições coloniais que, no século XVIII, visavam a exploração e a ocupação do vale amazônico.
Desalojados das suas antigas moradas, localizadas na foz do rio, onde eram numerosos, tiveram os Juruna, deslocando-se para o Sul, de entrar em frequentes e devastadoras lutas com outros índios, igualmente fortes, que passaram a ser seus vizinhos.
Mas foi só depois da ocupação do baixio e médio Xingu pelos exploradores da indústria extrativa (seringueiros e castanheiros),que a depopulação em que entraram, com aquêles primeiros reveses, veio a se agravar e a acelerar-se, ameaçando-os sériamente de extinção, o que não se deu, graças, únicamente, às soluções heróicas que um verdadeiro instinto de sobrevivência lhes apontou.
É oportuno lembrar que, nas regiões distantes, o contato desordenado com as populações do nosso interior, constitui ameaça mais séria à sobrevivência dos índios do que o seu ísolamento, apesar de tôdas as vicissitudes que possam atingí-los nesse estado.
Hoje, não passam os Juruna de algumas dezenas de indivíduos. São poucos, mas se sobressaem muito pelas qualidades pessoais que possuem. A honestidade, a dignidade e, acima de tudo, a coragem, são traços marcantes do seu caráter.
Até há bem pouco tempo eram considerados índios Tupi, isto é, filiados à grande família linguística dêsse nome. Atualmente, embora continuem não devidamente estudados, a tendência é considerá-los isolados linguísticamente, admitindo-se, entretanto, por ser evidente, a influência e a intrusão de elementos tupi no contexto geral da sua cultura.
No fim do século passado, viviam os Juruna, segundo afirmam, cêrca de quinhentos quilômetros ao norte das suas atuais aldeias, na altura de um grande pedral do rio, denominado "Pedra Sêca". Aí vieram ter fugindo ao contato com seringueiros e castanheiros e, simultâneamente, procurando se distanciar cada vez mais das agressivas hordas Caiapó que, na ocasião, afluíam e dominavam o médio curso do Xingu.
Logo ao se instalarem em "Pedra Sêca", começaram os Juruna, nas caçadas e pescarias que realizavam a montante de suas aldeias, a encontrar vestígios de outros índios que procediam do sul.
Duma feita, as "batidas" encontradas eram tão frescas que resolveram conhecer os seus autores.
Formaram para isso um grupo de seis homens e em canoas subiram o rio pela primeira vez. Como bons remadores, não tiveram dificuldade em vencer a correnteza e os encaichoeirados para atingir, depois de um tempo relativamente curto, o salto de Von Martius, extenso e belo pedral que se encontra a 8 graus de latitude sul, descoberto e batizado por Karl von den Steinen em 1884, por ocasião da sua descida do Xingu.
Era tal a quantidade de vestígios encontrados que os índios Juruna, em número reduzido como estavam, não se atreveram a prosseguir, pois tudo indicava ser aquêle lugar frequentado por tribo numerosa. Diante disso, apressaram-se em regressar à "Pedra Sêca" com a intenção de fazer nova subida com mais gente.
E como planejaram, assim fizeram. No ano seguinte, empreenderam novamente a subida do rio. Até mulheres e crianças tomaram parte nessa segunda expedição, chefiada pelo cacique Tchupimitá. Dessa vez, a subida do rio foi mais lenta do que a anterior. Quase um mês gastaram para alcançar as corredeiras de von Martius, onde fizeram uma parada de vários dias para explorar as imediações. Pesando que já estavam próximos da aldeia que buscavam, resolveram os Juruna, como medida de segurança, que sómente os homens continuariam a viagem. Escolheram então uma ilha situada bem no meio do rio e nela deixaram acampadas, em companhia de alguns homens mais idosos, as mulheres e as crianças que participavam da expedição. E para ganhar tempo, dessa altura em diante, passaram a viajar também à noite. Cinco dias acima do acampamento da ilha, atingiram a foz do rio Maritsauá Missú de onde avistaram, na direção sul, uma coluna de fumaça que brotava da margem direita do rio. Daí em diante, por precaução, passaram a navegar colados à margem oposta ao fogo. Finalmente, quando o defrontaram, viram duas canoas que desciam a correnteza, desaparecendo logo depois numa baía próximas. Ansiosos por conhecer os índios que há tempos procuravam, os Juruna embicaram suas canoas para a entrada da baía, ocultando-se numa pequena ilha, onde ficaram à espera dos acontecimentos. Pouco depois, surge outra canoa, tripulada por dois índios que faziam o mesmo caminho dos anteriormente avistados. ao passar entre a ilha e a margem do rio, os Juruna, já embarcados e ocultos na ramagem, saem para o largo e se aproximam da canoa. Adiantando-se aos outros Tchupimitá, o cacique Juruna, chega a pequena distância dos índios surpreendidos e apressa-se em mostrar-lhes os facões que trazia, ao mesmo tempo em que, por meio de gestos, procura revelar a sua intenção pacífica. Os dois índios, assustados, tentam ainda afastar-se, mas são impedidos por Tchupimitá que lhes segura enérgicamente a canoa, enquanto estende um facão ao que estava mais próximo. O brinde é aceito e uma "conversação", baseada exclusivamente na mímica, logo se estabelece. Os Juruna, pela primeira vez, ouvem o nome Suiá. Assim se chamavam os índios com os quais entravam em contato. Um dos tripulantes da canoa, Matsindú, era o cacique dos Suiá. Compreendendo que os Juruna desejavam conhecer e presentear mais gente, envereda ligeiro baía a dentro e logo depois reaparece comboiando três canoas lotadas de homens. Os Juruna, como ainda ignoravam a verdadeira disposição dos Suiá, aguardavam-nos na pequena ilha, uma centena de braças distante da margem. Não haviam ainda distribuído os poucos facões trazidos para êsse fim, quando avistam, surgindo da baía, várias canoas tão apinhadas de homens, quanto as três primeiras. Como eram poucos e nada mais tinham para oferecer, embarcam em suas canoas e se afastam para o largo. Depois de flutuar um pouco para responder aos gritos e acenos dos suiá, descem o rio a todo o remo. Dez dias mais tarde, estavam de volta à "Pedra Sêca".
A aventura deve ter impressionado favorávelmente aos Juruna, pois, naquele mesmo ano, resolveram deslocar sua aldeia para um ponto situado bem acima, a fim de se colocarem mais perto dos Suiá. Permaneceram na "Pedra Sêca" apenas o tempo necessário á fabricação de canoas em número suficiente para o deslocamento de todo o grupo, de uma só vez. A nova aldeia levantada numa ilha, pouco abaixo da foz do rio da Liberdade, deram o nome de Cuarraludjádjáca´, que significa "Pedra Rachada". Seu primeiro trabalho no lugar foi a desmatação para o plantio de roças, o que fizeram numa das margens do rio. Na ilha levantaram apenas as casas, costume antigo dos Juruna que assim procediam para se porem à salvo dos Caiapó, seus velhos inimigos.
No ano seguinte ao dêsse deslocamento, os Juruna empreenderam nova subida do rio com o intuito de melhor conhecer os Suiá. Do ponto em que estavam aldeados, não gastaram mais que cinco dias para alcançar a cachoeira de Von Martius. Um dia de viagem acima dela, surpreenderam um grupo de índios suiá,. mas não conseguiram estabelecer contato. Os seus acenos e chamados não foram correspondidos. Os suiá, assustados com a aparição brusca dos Juruna, viraram suas canoas rio acima e afastaram-se rápidamente. Os Juruna continuaram subindo e vendo, de quando em quando, nos estirões maiores, as canos cada vez se distanciando mais. Dias depois, ao atingirem a baía do primeiro encontro enveredaram por ela, julgando ser ali a aldeia dos suiá. Nada encontrando além de roças velhas, prosseguiram rio acima, beirando sempre a margem esquerda. Afinal, ao cabo de muitas horas de navegação, avistaram as moradas Suiá na margem oposta. Como o sol já estivesse prestes a se esconder, deixaram o contato para o dia seguinte. Ocultos sob as ramagens da beira do rio, esperaram a noite, e então, vagarosamente, encostaram suas canoas numa ilha - hoje desaparecida - que havia defronte da aldeia.
Mal o sol despontou, foram pressentidos. A aldeia tôda se agitou nos primeiros instantes, com gritos e correrias de um lado para outro. Passado o primeiro susto, alguns dos mais decididos entre os Suiá embarcaram em suas canoas e se dirigiram lenta mas decididamente para a ilha, onde os Juruna davam com os braços, convidando-os a encostar. Aos Juruna, armados de rifles ""44" e estratégicamente colocados, não custava manter a calma frente às canoas que se aproximavam.
As canoas Suiá encostam na ilha e, depois de um agitado falatório, inicia-se um comércio de trocas - penachos, arcos e flechas do lado suiá; facas e facões do lado Juruna. E os suiá passam a se revezar na ilha. Saía um grupo, aportava outro. Por vários dias os Juruna permaneceram ali, estreitando cada vez mais as suas relações com os suiá.; Nenhum incidente ou mal entendido quebrou, por um instante que fôsse, a disposição amistosa que reinou durante todo o tempo da visita. Tornaram-se amigos.
Visando, com certeza, consolidar a amizade firmada, os Juruna ao regressar deixam com os suiá um dos seus, um jovem chamado Enoacá. Com êles, Juruna, descem dois homens maritsauá que viviam com os suiá, e três mulheres: -Cainriri, Soaqui e Caimbã, sendo que esta última já casada com Xibutê,filho do cacique Tchupimitá.
De regresso à aldeia, resolveram os Juruna visitar um seringal que havia abaixo da Pedra Sêca. desceram quase todos, inclusive os dois maritsauá trazidos de cima. Chegando ao seringal, foram acometidos de forte gripe que lá grassava na ocasião. Os Juruna resistiram à moléstia, mas os dois acompanhantes maritsauá sucumbiram a ela. Não tinham, naturalmente, nenhuma defesa orgânica contra o mal.
Algum tempo depois dessa ocorrência, os Juruna realizaram uma nova visita aos Suiá. Notando que êstes ficaram muito contrariados com a morte dos maritsauá, trataram de regressar o quanto antes à sua aldeia, levando consigo Enoacá, o jovem que havia ficado com os suiá na viagem anterior. Enoacá que se tornara amigo dos Suiá, relutou em voltar aos seus.
PARTE 2 -- R e f l e x ã oOS JURUNA NO ALTO - XINGU
Por Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas
Texto apresentado em 1970 ao Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal de Goiás Goiânia - Goiás
No ano seguinte, os Juruna fizeram outra visita aos Suiá e, como das vêzes anteriores, foram bem recebidos. Encontraram os Suiá nessa ocasião muito preocupados com a presença entre êles de um índio Kamaiurá, há pouco chegado de cima. dizendo tratar-se de um feiticeiro dêles conhecido, pediram aos visitantes que o eliminassem com suas armas de fogo, no que foram prontamente atendidos. Empolgados com a eficiência dos rifles "44", passaram a insistir com os Juruna para que os acompanhassem num ataque aos índios Kamaiurá, localizados ao sul, à margem esquerda do rio Kuluêne. Depois de muito rogados, concordaram os Juruna e, em companhia dos Suiá, subiram o rio para atacar os Kamaiurá. Eram êles, Juruna, chefiados por Aumãma.
Os Suiá conheciam bem o caminho. Não encontraram, portanto, dificuldade alguma em localizar a aldeia Kamaiurá, a qual foi cercada à noite. Depois de uma longa espreita, ao clarear do dia, os Juruna, contrariando o desejo dos Suiá, fizeram alguns disparos sôbre a aldeia, sem alvejar pessoas. Os Kamaiurá, como era natural, entraram em pânico. Aos gritos e desorientados, correram em tôdas as direções. No meio da confusão estabelecida, os atacantes fizeram prisioneiros: quatro mulheres que, na aflição da fuga, tomaram a sua direção.
Dando por terminado o ataque, com o abandono da aldeia, pela totalidade da população, Juruna e Suiá tomam a trilha de volta, arrastando as mulheres que se debatiam desesperadamente. Em meio do caminho que ia ter às canoas, foram os raptores alcançados por um robusto jovem que, embora só e completamente desarmado, exige a devolução das mulheres, entre as quais estava sua espôsa. Impressionados com a ousadia e a coragem do rapaz, estavam os Juruna dispostos a atender-lhe a justa exigência, o que não fizeram por oposição dos suiá.; Não querendo contrariar seus amigos, os Juruna cederam, acabando por abater o corajoso índio com dois certeiros tiros de rifle. O jovem, ou por não conhecer arma de fogo, ou mesmo por destemor, não procurou esquivar-se ao ver a carabina apontada na sua direção. Chamava-se turucaré êsse moço e era, na ocasião, chefe dos Kamaiurá.
Quatro dias depois, Suiá e Juruna estavam de volta à aldeia dos primeiros. Era intenção dos Juruna levar as mulheres raptadas para a Pedra Sêca, porém os Suiá não concordaram com isso, tendo quase havido luta entre êles, o que não aconteceu em virtude da intervenção apaziguadora de Aumãma, cabeça do grupo Juruna.
Finalmente, os Suiá consentiram na descida de uma das quatro prisioneiras. Contrariados, os Juruna regressaram à sua aldeia e, lá chegando, planejaram nova subida do rio, dessa vez com o propósito de atacar os Suiá, não o fazendo diante da oposição do cacique Tchupimitá.
Dois ou três anos mais tarde, os Juruna sobem novamente o rio e como pretendiam atacar os Suiá, a aproximação foi feita de maneira diferente. Não navegavam a descoberto, não acendiam fogo que pudesse ser visto de longe.
O aldeamento Suiá, localizado pouco abaixo da foz do rio Paranajuva (Suiá-Missú), foi cercado à noite. No momento em que os Juruna tomavam posição ao redor das casas, o índio Enoacá - o mesmo que havia morado com os suiá - pisa num cadáver. Impressionado com a ocorrência, resolve voltar para as canoas e de lá, com tiros, alertar os suiá da aproximação dos Juruna. Ao ouvirem os estampidos os índios abandonaram rápidamente a aldeia sob a fuzilaria dos Juruna entocaiados. Uma única mulher, tomada por homem, foi atingida pelos disparos. Mal clareou o dia, os Suiá, refeitos do susto, saem para o limpo e lançam suas flechas contra os atacantes que já invadiam a aldeia. Contam que o ímpeto dos Suiá foi tão grande, nessa reação, que os Juruna, embora armados de rifles, tiveram que recuar, recebendo um dêles uma flecha no peito. Mas como o arco se quebrou ao ser retesado, a flecha partiu com pouca fôrça, não penetrando seu alvo. Os Juruna voltam ao ataque e conseguem aprisionar as três mulheres Kamaiurá que êles e os suiá haviam raptado anteriormente. Em seguida, alcançam suas canoas aportadas pouco abaixo da aldeia e descem o rio.
Na altura das corredeiras de von Martius, fazem uma longa parada e, executando um plano já assentado, derrubam mata para a plantação de roças. Era intenção dêles, Juruna, mudar sua aldeia para aquêle ponto do Xingu.
Chegando à "Pedra Sêca" para onde retornaram por não terem gostado de Cuarraludjádjáca - encontram vários barracões de seringueiros erguidos nas proximidades da aldeia. Constantino, proprietário do seringal, consegue através de promessas e presentes, fazer com que desistissem da mudança planejada e ficassem a seu serviço.
Decorrido algum tempo, outro seringal foi aberto pouco abaixo do barracão de Constantino. O dono do nôvo serviço já tivera contacto com os Juruna quando êstes moravam abaixo da "Pedra Sêca". E como em certa ocasião havia ajudado os índios a se livrarem da ameaça de outros moradores civilizados, consegue atraí-los para as proximidades do seu seringal. Contudo, a permanência dos Juruna nesse lugar foi curta, de alguns meses apenas. De acôrdo com o plano que tinham, abandonam em massa a zona dos seringais e vão se instalar cêrca de trinta quilômetros a montante das corredeiras de Von Martius.
Transcorrido um ano, surge na aldeia recém-instalada um casal de seringueiros. Vinha em nome de Constantino para presentear e convencer os índios da vantagem de se mudarem para a "Pedra Sêca". De início, os Juruna não concordam, mas, depois de muita insistência, um dos chefes do grupo, Nhariacú, resolve acompanhar o mensageiro de Constantino. Entretanto, o grosso da tribo permaneceu na aldeia, situada no local que denominaram Porori (Terra, Vermelha, na língua Juruna).
A ausência de Nhariacu não se prolongou por muito tempo. tendo perdido a mulher e dois companheiros numa luta com civilizados, retornou com sua gente ao Pororí. Após a volta de Nhariaçú, os Juruna todos se deslocam rio abaixo e vão aldear numa ilha ao pé da Cachoeira, a fim de se livrarem das nuvens de pernilongos que infestavam o Pororí.
No ano seguinte, Nhariacú e mais algumas famílias voltaram ao Pororí, mas como nessa altura os Suiá começaram a saquear suas roças, decidiram retornar à Cachoeira.De volta à Cachoeira, Nhariacú organiza um grupo e sobe o rio para atacar os suiá. Êstes haviam abandonado o velho aldeamento do Diauarum (Onça Preta), situado pouco abaixo da embocadura do Suiá-Missú. Estavam, na ocasião, localizados na extremidade de uma baía longa e sinuosa que defrontava a bôca do suiá-Missú ou Paranajuva. Verificando, porém que o Diauarum era visitado quase todos os dias pelos Suiá que vinham à procura de piqui, esconderam-se na mata e ficaram esperando a chegada de um grupo numeroso que compensasse o ataque. Isto logo aconteceu. Os suiá apareceram em duas canoas apinhadas: - cinco homens, dez mulheres e um menino. Nhariacú sai do esconderijo com sua gente e abate os cinco homens; depois, aprisiona as mulheres e o menino. em seguida, regressa à sua aldeia, distante cêrca de duzentos quilômetros rio abaixo.
Mais ou menos nessa ocasião, os Juruna resolveram estabelecer relações amistosas com os Kamaiurá e outros grupos dos formadores do Xingu. Inicialmente, seguiram poucas pessoas e entre elas duas das mulheres Kamaiurá que haviam sido raptadas. Chamavam-se, Iamacú e Tanarê. O grupo compunha-se de menos de dez: - Enoacá e sua espôsa Iamacu (Kamaiurá, como vimos); Manamaná e sua mulher Tanarêm, também kamaiurá; os filhos dêsses dois casais e dois homens solteiros.
Na confluência dos rios Kuluêne o Ronuro, não muito longe da aldeia, encontram alguns Kamaiurá. Iamacú e Tanarê entabulam conversação com seus parentes, dizendo que era propósito dos visitantes conhecer os Kamaiurá e dêles ficaram amigos. Depois de uma troca de presentes e de outras manifestações de amizade de parte a parte, os Juruna retornam à sua aldeia e comunicam a todos a boa receptividade que tiveram. Diante disso, Aumãma resolveu subir com todos os Juruna para visitar os novos amigos. Sómente uma pequena parte da tribo não quis acompanhar Aumãma, permanecendo na aldeia.
O numeroso grupo Juruna foi muito bem recebido e presenteado pelos Kmaiurá.
De regresso, Aumãma encontra os Juruna na ilha do Pororí. Soube que haviam abandonado a Cachoeira por causa da ronda constante dos Caiapó e que êsse fato vinha dificultando aos Juruna recolher o produto das suas roças, plantadas na margem esquerda do rio. Apenas Xibui????? sua família continuavam na Cachoeira, para onde se deslocaram mais tarde Maricauá e seus parentes. Mas Nhariacú e o resto dos Juruna permaneceram no Pororí. Alegava êste chefe que os Caiapó (Txucarramãe, como os chamava) por serem muitos, acabariam destruindo a todos êles, Juruna.
De fato, pouco tempo depois dêstes movimentos, os Txucarramãe assaltaram os Juruna, causando-lhes três mortes. Com isto, os Juruna que se encontravam na Cachoeira reuniram-se aos do Pororí. Passados alguns dias, vão todos juntos à ?Cachoeira e verificam que os Txucarramãe estavam presentes e se serviam de suas roças. De volta à aldeia, os Juruna iniciam os preparativos para atacar os Txucarramãe. Munidos de arcos, flechas e das carabinas "44" que possuíam, descem até a Cachoeira e enveredam mata à dentro à procura do inimigo. Após dois dias de caminhada por uma trilha aberta pelos Txucarramãe, alcançam êsses índios. O grupo Juruna, chefiado por Maricauá, aproxima-se cuidadosamente do lugar em que os Txucarramãe estavam acampados. então, apoiando sua arma no ombro de um companheiro, Maricauá derruba um dêles. Verificando, porém, que estavam em grande número, os Juruna regressam rápidamente para a margem do rio levando a cabeça do morto.
Tendo a situação se acalmado depois dêsse ataque - com o não reaparecimento dos Txucarramãe nas imediações da Cachoeira - os Juruna partem para uma nova viagem rio acima em visita aos Kamaiurá. Desta vez, era Nhariacú quem chefiava o grupo. Como já havia acontecido na viagem anterior, foram bem acolhidos e hospedados. vários dias estiveram na aldeia Kamaiurá, estreitando cada vez mais os laços da amizade recentemente começada entre as duas tribos. Os Kamaiurá, dando prova de confiança, consentiram na descida de um dos seus em companhia dos visitantes. Chamava-se Tepará, êsse índio.
Na ausência de Nhariacú, Aumãma, seu irmão Maricauá e outros, seguiram para o seringal da "Pedra Sêca", onde permaneceram vários meses, voltando de lá com presentes e um convite de Constantino no sentido de que descessem todos para os eu barraco. Informado do convite ao regressar à aldeia, Nhariacú ruma para o seringal com todo o seu grupo, levando inclusive, algumas das mulheres roubadas dos Suiá.
Chegando à "Pedra Sêca", os Juruna são convidados para descer o Xingu e conhecer Altamira. Aceitam e vão quase todos. No seringal, ficam apenas Nhariacú, sua família, e mais alguns.
Em Altamira, os Juruna foram acometidos de sarampo, morrendo todos, com a exceção de um menino kamaiurá que êles criavam. Com a volta dessa criança e dos homens de Constantino, o sarampo irrompeu também nos barracões da "Pedra Sêca", vitimando a maior parte dos que haviam permanecido nesse lugar. Depois disso, Nhariacú e família (que embora atacados pelo sarampo, escaparam à morte), retorna à aldeia que continuava instalada no Pororí. Quase ao mesmo tempo, Aumãma regressava de outra visita aos Kamaiurá, trazendo nessa viagem uma mulher Kalapálo, chamada Caissucá.
Por essa época, uma expedição de três civilizados, guiada por índios Bacairí, chegou á aldeia Juruna. Julgamos tratar-se da Expedição Fontoura que, como se sabe, desceu o Xingu em 1913. No primeiro momento, os Juruna quiseram matar êsses exploradores, mas, aconselhados por um de seus chefes que dizia tratar-se de gente boa, abandonaram a idéia. A expedição, depois de alguns dias de descanso na aldeia, reiniciou a descida do rio com a ajuda dos Juruna, pelos quais foi acompanhada até um local situado abaixo das corredeiras de von Martius. Contam os índios que, nessa altura, o chefe da Expedição (Fontoura, com certeza), manifestou o desejo de regressar, mas, informado por êles, Juruna, de que os civilizados não estavam muito longe daquele ponto , resolveu prosseguir viagem rio abaixo.
Alguns meses depois da passagem da expedição, os Juruna subiram para visitar os Kamaiurá. Com exceção de Maricauá que tendo encontrado os Uaurá na confluência Kuluêne-Ronuro decidiu seguir com êles para conhecer sua aldeia, todos os outros, inclusive Aumãma, permaneceram longo tempo entre os Kamaiurá.; Quando, finalmente, Maricauá chegou de volta ao Pororí, o resto dos Juruna já havia regressado àquela aldeia. Os presentes recebidos dos Uaurá - enfeites, arcos, flechas, novelos de algodão e outras coisas, produziram boa impressão nos Juruna. Mas o que lhes causou maior satisfação foram as grandes e vistosas panelas de barro que sómente os Uaurá sabiam fazer.
Quatro índios de cima acompanharam os Juruna no seu regresso ao Pororí: - Aparrurú, homem kamaiaurá; Tuví e Kaialacú, mulheres dessa mesma tribo e, finalmente, Kataucá, índio Trumái. Êste último, reunira-se aos Juruna quando êstes passaram por sua aldeia, no Anariá.
No ano seguinte, os Juruna empreenderam outra viagem rio acima, dessa vez com o objetivo de estreitar suas relações com os Uaurá, de onde, algum tempo antes, Maricauá voltara muito satisfeito. Todos os Juruna participaram dessa viagem, menos Tchjupimitá que permaneceu na aldeia com sua família. Na aldeia Uaurá, que alcançaram depois de uma jornada ininterrupta de quinze dias, tudo correu da melhor maneira possível, num ambiente de franca camaradagem. No regresso, dois índios Uaurá, chamados Akoeté e Ianumacacumá, acompanharam os Juruna com o consentimento de Upatacú, chefe da tribo.
Depois dessa visita que significou um definitivo estreitamento de relações entre os dois grupos, os Juruna, com a intenção de ficarem mais perto das aldeias amigas localizadas ao sul, isto é, nos formadores do Xingu, decidiram transferir sua aldeia do Pororís para a foz do Maritsauá-Missú.
Nessa altura, Maricauá e alguns acompanhantes realizaram uma visita aos Trumái, presenteando-os, na ocasião, com facões, colares e duas armas de fogo, o que muito agradou aos Trumái. Ao regressar dessa visita, Maricauá foi expontâneamente acompanhado por cinco mulheres e um homem. As mulheres chamavam-se Parrái, Caiulú, Iacaiquirú, Maiquí e Atauacá; Tavaracú era o nome do homem.
Enquanto providenciavam a instalação da nova aldeia construindo casas e derrubando matas para a plantação de roças, os Juruna, nos intervalos dêsses serviços, fizeram mais duas visitas ao Kamaiurá e Trumái. No regresso de uma das viagens, levaram para sua aldeia um jovem kamaiurá, chamado Maricá. Êsse moço, depois de alguns anos retornou ao seu grupo de origem, e vive até hoje.
Pouco mais tarde, quando já se encontravam de mudança para a foz do Maritsauá-Missú, foram procurados por outro mensageiro de Constantino que os convidava para voltar à "Pedra Sêca". Dessa vez, porém, deixando de atender ao chamado do seringalista, mudaram-se para a bôca do Maritsauá-Missú, ponto situado mais de cem quilômetros a montante do lugar em que estavam.
Após êsse deslocamento, Oxí, o Kamaiurá Aparruru e Cavurimã, filho do chefe Nhariacú, subiram para os Trumái em visita. Os Trumái, nessa ocasião, residiam no lugar denominado Anariá, braço morto ou baía da margem direita do Kuluêne, pouco acima da confluência dêsse rio com o Ronuro. Seis ou sete dias depois da partida, os Juruna estavam entre os Trumái, no Anariá.
Terminada a visita, durante a qual houve troca de presentes e outras manifestações de amizade, estendem a viagem até os Kamaiurá, onde permanecem por alguns dias. No regresso, pernoitam na aldeia Trumái sem que qualquer ocorrência ou incidente tenha se registrado. Mas, de volta à aldeia Juruna, Aparrurú diz a Nhariacú que os Trumái tiveram a intenção de matar seu filho Cavurimã, quando pernoitaram no Anariá.
Enquanto providenciavam a instalação da nova aldeia construindo casas e derrubando matas para a plantação de roças, os Juruna, nos intervalos dêsses serviços, fizeram mais duas visitas ao Kamaiurá e Trumái. No regresso de uma das viagens, levaram para sua aldeia um jovem kamaiurá, chamado Maricá. Esse môço, depois de alguns anos retornou ao seu grupo de origem, e vive até hoje.
Pouco mais tarde, quando já se encontravam de mudança para a foz do Maritsauá-Missú, foram procurados por outro mensageiro de Constantino que os convidava para voltar à "Pedra Sêca". Dessa vez, porém, deixando de atender ao chamado do seringalista, mudaram-se para a bôca do Maritsauá-Missú, ponto situado mais de cem quilômetros a montante do lugar em que estavam.
Após êsse deslocamento, Oxí, o Kamaiurá Aparruru e Cavurimã, filho do chefe Nhariacú, subiram para os Trumái em visita. Os Trumái, nessa ocasião, residiam no lugar denominado Anariá, braço morto ou baía da margem direita do Kuluêne, pouco acima da confluência dêsse rio com o Ronuro. Seis ou sete dias depois da partida, os Juruna estavam entre os Trumái, no Anariá.
Terminada a visita, durante a qual houve troca de presentes e outras manifestações de amizade, estendem a viagem até os Kamaiurá, onde permanecem por alguns dias. No regresso, pernoitam na aldeia Trumái sem que qualquer ocorrência ou incidente tenha se registrado. Mas, de volta à aldeia Juruna, Aparrurú diz a Nhariacú que os Trumái tiveram a intenção de matar seu filho Cavurimã, quando pernoitaram no Anariá.
Nhariacú, dando crédito, às afirmações de Aparurú, sobe com vários companheiros para atacar os Trumái. Perto da aldeia, os Juruna se escondem e aguardam a noite. Pouco antes do amanhecer, escuro ainda, desfecham o ataque alvejando e matando os dois primeiros homens que abandonaram as casas. Outros dois que se aproximaram atraídos pelos estampidos, tiveram a mesma sorte dos primeiros. Foram as únicas vítimas de morte. Os demais conseguiram escapar, embrenhando-se nas matas e cerrados próximos. Na confusão, quatro índios foram agarrados pelos assaltantes: - Aloarí, de aproximadamente quinze anos; Macaiuá, menino de doze; cucuarí, de quatro ou cinco; Amaiquí, mulher jovem e um homem velho que foi morto por Enoacá durante a retirada.
Quando o dia clareou de todo, verificaram os Juruna que os dois primeiros homens que haviam sido mortos eram Kamaiurá que se encontrava em visita aos Trumái. Ficaram, por isso, muito consternados, principalmente pelo fato de um dês ser filho de Tacumã, chefe dos Kamaiurá.
De regresso, acampam no Morená - Confluência dos rios Kuluêne e ronuro - de onde Nhariacú acompanhado de mais alguns se dirige para a aldeia Kamaiurá, a fim de explicar o incidente ocorrido no Anariá. Chegando à aldeia, depois de dizer à Tacumã que o desastre fôra resultado de um engano, presenteou-o como reparação pela morte do filho. Entretanto, notaram os Juruna que, apesar das explicações os Kamaiurá ficaram muito contrariados com o acontecido. Diante disso, desceram o rio sem a intenção de retornar.
Mas não resistiram por muito tempo ao desejo de restabelecer as antigas relações com as aldeias de cima, bem como à idéia de conhecer os Bacairí, aldeados no alto rio Kurizêvo.
Assim foi que Aumãma, o chefe geral dos Juruna, sobe o rio com o plano de visitar os Bacairí e de reatar relações com os Kamaiurá. O grupo Juruna compunha-se de doze homens. Na altura do ribeirão Tuatuarí, afluente da margem esquerda do Kuluêne, Aumãma e sua gente encontraram os Kamaiurá que, no momento, realizavam uma das suas grandes pescarias. Os Juruna foram bem recebidos. Mas, em verdade, ressentidos ainda com o desastre do anariá e, além disso, ambicionando as armas que os viajantes conduziam, os Kamaiurá resolveram matá-los, o que levaram a efeito depois de várias e astuciosas manobras. Nenhum Juruna sobreviveu.
O grupo todo de aumãma foi massacrado.
Meses após essa ocorrência, os juruna Xibutêm, Manamaná, Maricauá e aparrurú chegam à aldeia Kamaiurá à procura dos seus parentes. Disseram-lhes os kamaiurá que aumãma havia subido o rio Kurizêvo para visitar os Bacairí e que deveria demorar ainda um pouco na viagem, visto ser muito longe a aldeia daqueles índios.
Levando um convite no sentido de que todos subissem para aguardar no Ipavú (aldeia kamaiurá), o regresso de Aumãma, os visitantes retornam ao Maritsauá, tendo seguido com êles uma jovem kiamaiurá chamada Canhanacú, a qual, pouco antes, havia se separado do marido.
Quando os Juruna já se preparavam para subir, atendendo ao convite dos Kamaiurá, Aparrurú (índio kamaiurá que vivia entre êles), embriagado pelo cachirí, desaconselha a viagem dizendo que os Kamaiurá estavam mentindo e que já haviam morto aumãma e todos os outros.
Nhariacú, o outro chefe Juruna, não acredita na informação de aparrurú, alegando que a morte dos Kamaiurá no anariá já havia sido reparada e que, por isso, coisa alguma poderia ter acontecido a Aumãma.
Assim pensando, Nhariacú sobe o rio com oito companheiros para aguardar o retôrno dos parentes na aldeia Kamaiurá. Lá chegando, tiveram boa acolhida. entretanto, depois de alguns dias de espera, os Juruna começam a revelar impaciência, criando com isso, certo mal estar na aldeia.
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