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sábado, 26 de abril de 2008

Ensaio - Graciliano Ramos - Animalização e denúncia

Animalização e denúncia - Ensaio - Graciliano Ramos

Animalização e denúncia - Ensaio - Graciliano Ramos

Em Vidas Secas, considerado pela maioria da crítica literária como a obra prima de Graciliano Ramos, é praticamente impossível não se emocionar com o sofrimento de uma família de retirantes que tenta sobreviver à seca. O grupo familiar, que quase não se comunica e parece com bichos, é liderado por Fabiano que para conseguir a sobrevivência da família, humilha-se diante dos personagens soldado amarelo e do proprietário das terras, para quem trabalha como vaqueiro. Diante as diversas humilhações as personagens, principalmente Fabiano, iniciam processos de metamorfoses, que tendem a atingir a denominada animalização.O dicionário Aurélio recolhe animalizar (16) como sinônimo de tornar bruto, embrutecer, bestializar. O verbete animalizar significa também reduzir os seres humanos aos seus instintos, aos apetites, aos gostos do animal; é o reduzir-se, ao estado animal: é entregar-se as paixões brutas, é animalizar-se. Dessa forma, observa-se que as personagens são tratadas como bichos: ´E talvez esse lugar para onde iam fosse melhor que os outros onde tinham estado. Fabiano estirou o beiço, duvidando. Sinhá Vitória combateu a dúvida. Porque não haveriam de ser gente, possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira? ( ... ). Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias. Podiam viver escondidos. como bichos? Fabiano respondeu que não podiam (17)Como se corrobora, as personagens comparam seus ideais de vidas com sonhos materiais e com a condição de ser ou não gente, em virtude de pequenas regalias como possuir uma cama. Se um homem pode atingir o estado de animalização, nada mais oportuno que considerar este fenômeno uma ´doença´ ou anomalia. É o fenômeno da seca, brutalizando o ser humano. Vejamos o exemplo a seguir: Enfim, contanto ... Seu Tomás daria informações. Fossem perguntar a ele. Homem bom, Seu Tomás da bolandeira, homem aprendido. Cada qual como Deus o fez. Ele, Fabiano, era aquilo mesmo, um bruto. (18)Se Fabiano era bruto, o meio foi determinante para que ele se animalizasse. A atmosfera da ficção graciliânica está mergulhada na humanidade, no encantamento, projetados no contexto social e na paixão pela escrita. A busca dos valores humanos implica na elaboração de um vasto painel da época, na década de 1930.Como é relatado em Vidas Secas o sertanejo é reduzido à condição de animal. Isso é percebido pela ausência de fala entre Fabiano e seus familiares. Eles quase não conversavam e a pouca comunicação existente era feita por meio de gestos e sons guturais: Sinhá Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto (19).Além da comunicação feita por sons guturais, um outro exemplo, onde podemos comprovar o pouco uso da palavra pela família de retirantes, é o fato do papagaio imitar os latidos da cachorra Baleia. Os papagaios, como notamos, têm a capacidade de repetir a fala humana, através dos sons e das palavras.Homens e bichosComo a família falava pouco, os latidos de Baleia eram o único som que a ave ouvia e repetia com freqüência: ´Resolvera de supetão aproveitá-lo como alimento e justificara-se declarando a si mesma que ele era mudo inútil. Não podia deixar de ser mudo. Ordinariamente a família falava pouco, e depois daquele desastre viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a cachorra? (20)Neste contínuo ir e vir do homem e dos animais onde uma vida seca é uma vida subumana, as trocas de relações acontecem naturalmente, como um processo esperado. Se o papagaio latiu era de se esperar que a sua relação era maior com os latidos da cachorra Baleia do que com a fala de Fabiano ou de sinhá Vitória.A animalização das pessoas também pode ser percebida através das atitudes praticadas pelas personagens. Isto é claro quando Sinhá Vitória, impulsionada pelo seu instinto de sobrevivência lambe o sangue do preá que estava acumulado no focinho da cachorra Baleia. Assim, homem e animal equiparam-se e colocam-se em um mesmo nível de sobrevivência: ´Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de sonho. Sinhá Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensangüentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo.´ (21)Nesse processo, pode-se observar a confusão do homem com o animal. O processo de animalização deixa marcas da miséria e da falta de higiene. Alguém sem perspectivas é rebaixado à condição animal, e o animal, por sua vez, fiel no convívio com o homem, nesta caminhada termina por humanizar-se. Logo, se ocorre a animalização das pessoas na narrativa, verificaremos a antropomorfização dos animais. Nesse fragmento, a cachorra Baleia foi promovida à condição humana e sinhá Vitória rebaixada a condição de bicho, de animal.Como sinhá Vitória, Fabiano também é comparado a um animal. Isto pode ser comprovado em várias passagens da obra. Primeiramente quando ele diz que é um bicho: -Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha - e ai estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha. -Um bicho, Fabiano. Era. (22)A personagem Fabiano tem, assim, consciência da sua subcondição. Como comprovamos, ora Fabiano é um bicho, ora é um macaco: O corpo do vaqueiro derreava-se, a pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco. (23)Em contraponto à animalização de Fabiano, temos a humanizada cachorra Baleia, que é tratada como um membro da família, uma irmã para o menino mais velho e para o menino mais novo. Desse modo, ocorre, pois, o processo de antropomorfização: Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam. (24)Os tipos sociais são revelados por meio de suas personagens; por meio de personagens como Fabiano e sinhá Vitória, através ainda da descrição do espaço social. Os personagens são mais do que simples coadjuvantes, eles são protagonistas de um drama social, econômico e político que paira no Nordeste, o conhecido ´flagelo da seca´. São homens, mulheres, crianças, jovens adultos e quase nenhum idoso.As personagens, os grupos e as classes retratados por ele na ficção tornam-se cabalmente representativos da situação histórica que os envolve: os conflitos da sociedade, que era o fenômeno da seca e suas conseqüências. Muitos conflitos são mascarados e se manifestam em obras cuja essencial idade social quer revelá-los através de suas personagens. É o leitor quem vai eleger a obra literária como uma obra de que se aproxima e seja compreendida no seu mundo pragmático.Graciliano Ramos traça seus objetivos mentais e segue um roteiro invisível, mas a busca da forma mais exata, enxuta, o leva a reescrever tudo. É nessa busca por uma lapidação perfeita da forma e do conteúdo que o escritor se vê frente a frente com o humano.NOTAS(1) Cf. MONTENEGRO, Pedro Paulo et. al. ´O Romance de 30 no Nordeste´. In: ____ O Romance de 30 no Nordeste. Fortaleza: Edições UFC, Proed, 1983. p.13.(2) LINS, Álvaro. ´Valores e Misérias das Vidas Secas´. In: RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Posfácio de Álvaro Lins, ilustrações de Aldemir Martins. 48ª ed. Rio, São Paulo: Record, 1981.p. 153.(3) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Posfácio de Álvaro Lins, ilustrações de Aldemir Martins. 48ª ed.. Rio, São Paulo: Record, ]981. p. 19.(4) RAMOS, Graciliano. Memórias do Cárcere. 14ª ed. Rio, São Paulo: Record, 1981.Vol. I. p.52.(5) LINS. Osman. ´O Escritor e a obra´. ln: Guerra sem testemunhas: o escritor, sua condução e a realidade social. São Paulo: Ática, 1974. (Coleção ensaios-;2). p. 216-220.(6) RAMOS. Graciliano. Vidas Secas. Cit. p. 107.(7 )ANGELIM, Leila Makelly Lima. ´A expectativa social de Graciliano Ramos´. In: Graciliano Ramos: Pinceladas alegóricas e imaginação em A terra dos meninos pelados. Fortaleza: UFC (CAPES: Mestrado em Letras), 2005. p.26.(8) LUCAS. Fábio. O caráter social da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970. p.52.(9) SARTRE, Jean-Paul. Que é a Literatura? Tradução: Carlos Felipe Moisés. 2ª ed. São Paulo: Ática. p.24.(10) RAMOS, Graciliano. Cartas. Rio de Janeiro: Record, 1980. p.197.(11) ALMEIDA, José Mauricio Gomes de. A tradição regionalista no romance brasileiro (1857-1945). Rio de Janeiro: Achiamé, 1981. p. 244.(12) RAMOS. Graciliano. Vidas Secas. Cit. P.77.(13) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Cit. p. 83.(14) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Cit. p. 83.(15) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Cit. p. 23.(16) FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário da língua portuguesa. Coordenação Marina Baird Ferreira, Margarida dos Anjos; equipe Elza Tavares Ferreira et al. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p.32.(17) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Cit. p.129.(18) RAMOS. Graciliano. Vidas Secas. Cit. p.45.(19) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Cit. p.11.(20) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Cito p.14.(21) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Cit. p.18.(22) RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Cit. p.20.(23) RAMOS. Graciliano. Vidas Secas. Cit. p.19-20.(24) SARTRE Jean-Paul. Op. cit. p.24.

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