Homenagem à história
Réplica de caravela faz a primeira viagem hoje para celebrar o Descobrimento e a chegada da família real
Dona Carlota Joaquina e dom João VI não estão apreensivos como em janeiro de 1808, quando vieram de Portugal para o Brasil fugidos das tropas de Napoleão Bonaparte. Visivelmente adaptados aos tempos modernos, preparam-se para a viagem triunfal marcada para hoje, em comemoração ao dia do descobrimento, 22 de abril de 1500, e aos 200 anos da chegada da família real. Apesar de vestidos a caráter para consagrar as duas passagens históricas, é o meio de transporte utilizado na homenagem que deve chamar a atenção. Uma réplica de uma caravela quinhentista está pronta para zarpar do Forte de São Marcelo em direção aos faróis da Barra e de Mont Serrat.
Tendo como cenário a Baía de Todos os Santos, a Príncipe Regente, como foi batizada a embarcação, levanta âncora às 18h em ponto, quando se iniciará o coquetel para autoridades e convidados no São Marcelo. O museólogo do forte, Anderson Moreira, e a professora aposentada da Escola de Dança da Ufba, Edva Barreto, tomam a pele de dom João e dona Carlota durante a cerimônia. No ensaio de ontem, metidos em figurinos alugados do Teatro Castro Alves, ambos fantasiaram a chegada da família real e recriaram os primórdios do Brasil-Colônia. “Não podemos esquecer a importância da vinda da corte. Entre outras coisas, eles abriram os portos às nações amigas e criaram a primeira faculdade do Brasil”, ensina o museólogo.
A caravela tem capacidade para cem pessoas, mas por medida de segurança levará a bordo apenas 50 passageiros e três tripulantes. Dois anos depois de iniciada a sua construção, feita a partir de madeira de jaqueira, a embarcação está pronta para compor o acervo do Forte de São Marcelo. “A Príncipe Regente combina perfeitamente com essa paisagem. Acreditamos que vai ser um sucesso”, aposta o presidente da Associação Brasileira de Amigos das Fortificações e Sítios Históricos (Abraf), coronel Enésio Leite.
Trata-se de uma réplica de uma das caravelas que formaram a esquadra de Cristóvão Colombo, quando o explorador chegou às Américas, em 1492. A Príncipe Regente se assemelha à Pinta, do famoso trio de embarcações, a nau Santa Maria e as caravelas Pinta e Nina. “Na verdade, relembramos num só evento três momentos históricos distintos: O descobrimento, a chegada da família real e a viagem de Colombo”, explica Moreira. Assim como a Pinta, a embarcação inaugurada hoje abrirá três velas com a estampa da cruz de Cristo, constantemente confundida com a cruz-de-malta portuguesa. Apesar do velame, a Príncipe Regente é equipada com motor. O mesmo trajeto que a caravela cumprirá hoje estará disponível para quem se interessar. A embarcação poderá ser contratada para passeios de baianos e turistas. Se realizado a motor, o tour náutico custará R$50 por pessoa. Se feito à vela, os custos aumentam. “Isso porque temos que levar o dobro de tripulantes. Nesse caso, cobraremos R$65”, avisa o coronel Leite. Segundo Moreira, o passeio é uma oportunidade para ver a cidade a partir do mar. “É uma leitura do frontispício de Salvador”, salienta.
***
Fiasco descartado
A Príncipe Regente é uma criação do armador náutico José Nelson Fernandes. Construída nos estaleiros de Valença, no baixo-sul do estado, já foi testada e aprovada. Nem se cogita a possibilidade de repetição do fiasco da Nau Capitânia, uma das maiores atrações das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, em 2000. À época, a réplica da embarcação que trouxe Pedro Álvares Cabral fracassou por uma sucessão de falhas técnicas que iam desde a falta de lastro até uma falha na construção do motor. Bem menor que a Nau Capitânia, a Príncipe Regente custou R$800 mil, valor bem inferior se comparado aos R$4 milhões consumidos pela réplica do barco de Cabral. Com 15m de comprimento, 4,5m de embocadura e oito nós de deslocamento, a embarcação permite boa acomodação às águas da baía, segundo Fernandes. Os testes de mar apontam que a réplica pode navegar a até quatro milhas da costa. “Essa navega mesmo. Aliás, navega muito melhor que muitos barcos modernos que existem por aí”, garante Fernandes, que divide os méritos da construção com o artesão Edi Carlos.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário