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sábado, 26 de abril de 2008

Ensaio - Graciliano Ramos - Regionalismo em Vidas Secas

Regionalismo em Vidas Secas
Ensaio - Graciliano Ramos

Enveredar pelo estudo da obra ficcional de Graciliano Ramos é um desafio que cerca o universo de seus críticos, leitores e admiradores em geral. Daí que a possibilidade de escrever regionalismo e animalização em Vidas Secas seja algo deveras instigador. A presente pesquisa surgiu da possibilidade de construir uma leitura acerca do livro Vidas Secas, a partir dos aspectos composicionais de sua ficção, cuja atmosfera advém do contexto histórico que caracterizou, no Brasil, os anos 30 do século passado. Eis, assim, o motivo central dessa edição.A crise econômica provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova lorque, a crise cafeeira, a Revolução de 1930, o acelerado declínio do nordeste condicionaram um novo estilo ficcional, notadamente mais adulto, mais amadurecido, mais moderno que se marcaria pela rudeza, por uma linguagem mais brasileira, por um enfoque direto dos fatos, por uma retomada do naturalismo, principalmente no plano da narrativa documental, desencadeando, assim, um romance nordestino, com liberdade temática e rigor estilístico na década de 30.O regionalismo é um dos termos usados para o grupo de escritores do nordeste que se destacaram na década de 1930. Terminologicamente também denominado de ´Romance de 30 do Nordeste´, este termo recebeu designações geográficas (Norte/Nordeste), cronológicas (romance de 30, década do romance de 30, ciclo de 30, ficção de 30, o romance brasileiro de 30), literárias (regionalismo, modernismo, neo-realismo, ciclo nordestino do romance modernista) e temáticas (literatura das secas, ciclo da cana-de-açúcar, do cacau, romance de testemunho). Daí a ênfase a escritores ideologicamente semelhantes como José Américo de Almeida (A bagaceira - 1928), Raquel de Queiroz (O Quinze - 1930), José Lins do Rego (Menino de Engenho - 1932), Jorge Amado (Cacau - 1933) e Graciliano Ramos (São Bernardo - 1934). A década de 30 produziu também uma geração de romancistas no Centro e no Sul que passaram, assim como os escritores do Nordeste, a impor uma nova maneira de pensar acerca das particularidades regionais do Brasil.Muitos romancistas ficam conhecidos pela utilização de recursos que os enquadraram no chamado Regionalismo Nordestino de 30, consistindo na retomada de temas, como a seca, o êxodo rural, a decadência da sociedade patriarcal do Nordeste, a crítica social, os problemas do homem nordestino, a renovação da linguagem, das técnicas e suas conseqüências mais conhecidas. Sobretudo o chamado Romance de 30 no Nordeste participou, com seu contribtlo temático de seca, cangaço, fanatismo religioso, latifúndios e exploração do homem pelo homem (1), segundo Pedro Paulo Montenegro.A ficção dos anos 30Os romancistas de 30 caracterizavam-se por adotarem visão crítica das relações sociais, regionalismo ressaltando o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, cidade, o homem devorado pelos problemas que o meio lhe impõe. As obras nordestinas escritas na década de 1930 se inserem na linha do Realismo crítico, tão em voga nessa década e, mais ainda, na literatura contemporânea. Além destas características, observa-se que o regionalismo nordestino identifica fatos, traços, temas, personagens que descrevem e torna em evidência uma região. Neste caso a região em foco é a região nordeste com seu povo, sua linguagem, sua cultura e seus dramas.A temática abordada pelo Romance de 30 deixa prevalecer em tudo a questão social, em que o homem é o personagem protagonista; quando não, ele é substituído pelo espaço seco ou caracteristicamente nordestino, como constata Álvaro Lins: ´Vidas Secas é o que contém maior sentimento da terra nordestina, aquela parte que é áspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados teluricamente. O que impulsiona os seres desta novela, o que lhes marca ajisionomia e os caracteres, é o fenômeno da seca.´ (2)E sem dúvida o fenômeno da seca o personagem principal desta novela, porque revela personagens e um enredo que giram e são determinados por esta intempérie nordestina. O espaço nordestino marca a vida e a obra graciliânica. Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Estudou em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais ´Correio da Manhã e A Tarde´, passou a fazer jornalismo e política elegendo-se prefeito em 1927. Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu Memórias do Cárcere, um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido Comunista Brasileiro. Graciliano estreou em 1933 com Caetés, mas é São Bernardo, verdadeira obra prima da literatura brasileira. Depois vieram as publicações de ´Angústia´ (1936) e Vidas Secas (1938).A inscrição do romanceÉ exatamente em 1938 que a obra Vidas Secas ganha notoriedade no universo ficcional. A obra assume grande importância para a literatura, porque revela um mundo marcadamente regionalista, assumindo uma posição notadamente social e crítica sobre o sofrimento da seca como tece Graciliano Ramos. Essa obra possui uma atmosfera da ficção que está mergulhada na humanidade, no encantamento, projetados no contexto social e na paixão pela escrita. A busca dos valores humanos dá seguimento a um audacioso projeto que implica a elaboração de um vasto painel de cenário seco em 1930. A seca não conseguia se desvincular, de modo algum, do espaço literário descrito por Graciliano Ramos: ´Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca, era hóspede que demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite .(3)Tal painel desenha o fenômeno da seca e o ambiente típico de uma fazenda no nordeste, além de desencadear um projeto de escrita social voltado para um engajamento com o sistema que mutilou esse homem da terra, que planta em terra alheia, planta sem liberdade. Essa falta de liberdade é lembrada em Memórias do Cárcere, onde Graciliano Ramos afirma que foram-lhe cassados seus direitos de cidadão. Revolucionário chinfrim, afirmou: Desculpava-me a idéia de não pertencer a nenhuma organização, de ser incapaz de realizar tarefas práticas. Impossível trabalhar em conjunto. As minhas armas, fracas e de papel, só podiam ser manejadas no isolamento. (4)FIQUE POR DENTROO percurso literário de Graciliano RamosA riqueza da obra literária de Graciliano Ramos tem início com a publicação de Caetés em 1933. No entanto, o autor surpreende seus leitores em 1934, adquirindo maior valor estilístico com a feitura de São Bernardo. Na década de 30, o escritor é preso sob vaga acusação, atinge as profundezas de sua habilidade como escritor em 1936, com a publicação de Angústia, quando consegue alcançar a posição de um dos mais importantes romancistas brasileiros. Em 1937 escreve o livro infanto-juvenil A terra dos meninos pelados. Surge, então, a tessitura de Vidas Secas em 1938, demonstrando que a secura da terra também pode influenciar na rudeza do homem do nordeste. O autor é um misto de escritor e cidadão. Por isso, muitas de suas recordações e de seu comportamento como escritor são, sobretudo, revelados durante a leitura de Infância (1945) e de Memórias do Cárcere (1953). Graciliano Ramos durante a década de 30 consegue desenvolver toda uma trajetória literária e pode ser consagrado como um verdadeiro intelectual por sua invejada escritura. Uma de suas singularidades, enquanto ficcionista do Romance de 30, residiu em aplicar a análise psicológica à prosa regionalista; com tal expediente, ele atingiu a esfera da universalidade temática.

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