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sábado, 24 de maio de 2008

VOLTAIRE: O VERSEJADOR, O LITERATO, O COMUNICADOR

VOLTAIRE: O VERSEJADOR, O LITERATO, O COMUNICADOR

Jussara Santos Pimenta
Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
(PUC-Rio)

“Marchez toujours em ricanant, mé frères
dans le chemim de la verité”.
(Voltaire, Carta a D'Alembert, 1761)
Resumo: Esse trabalho tem como objetivo apresentar alguns instantes da vida e obra de Voltaire
e discutir a conexão existente entre essa vida e obra, ou seja, o que foi definitivo e marcante em
sua trajetória pessoal, a influência do contexto histórico, o que foi definitivo para o desenvolvimento
de suas campanhas, que propósitos utilizou ou silenciou. A partir dessa reflexão, encaminha para
uma divisão, apenas didática, em três fases: a primeira, que nasce a partir de seus dotes de hábil
versejador; a segunda, de literato e intelectual da academia e a terceira fase - a do comunicador -
que inicia com as suas campanhas e panfletos e o livro Cândido.
Palavras-Chave: Voltaire. Filosofia. História da Filosofia.
Abstract: This study concerns some moments of life and work of Voltaire and considers the link
between these two aspects, that is, what was crucial in his personal path and decisive for the development
of his campaigns, which proposals he had or put aside, as well as the influence of the historical
context. From these considerations, this study didactically divides his life into three periods:
the first, which originates from his abilities as a poet; the second, as a talented writer; and the third –
as a communicator –, which initiates with his campaigns and pamphlets, and the book Candid.
Key- words: Voltaire. Philosophy. History of Philosophy.
rançois Marie Arouet nasceu
em Paris 1694. Era filho de um
comerciante e notário no Chatelêt.
Estudou com os jesuítas, embora
afirmasse que com eles só havia
aprendido latim e algumas bobagens.
Seu pai sonhava em torná-lo advogado,
porém Voltaire achava que o
Direito era uma profusão de coisas
inúteis. Quando soube que o pai
pretendia comprar um título de nobreza
para ele, teria respondido que
não se interessava por uma deferência
comprada e que o conquistaria
sem nada pagar a ninguém.
Um dos homens mais fascinantes e
paradoxais de todos os tempos, Vol-
F
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taire era ao mesmo tempo ambicioso,
intolerável, polêmico, odioso, ridículo,
ímpio, intransigente, impiedoso, intrigante,
caluniador, jamais esquecia a
injúria recebida. O escândalo era o
seu dia-a-dia, permanecia à espera
de oportunidade para dizer a última
palavra. Era sempre um exagerado
em tudo, além de impulsivo, iracundo,
inepto, cheio de má-fé, incapaz de se
privar de um golpe baixo e ademais,
possuído pelo desejo de destruir e
liqüidar aqueles que o feriam. Encontrava-
se freqüentemente exilado,
para fugir dos excessos de sua pena,
por ordem real ou por conta própria.
Tudo o que escrevia se agitava e se
irradiava. Por outro lado, era extremamente
lúcido, consciente de suas
limitações, e tinha excepcional sensibilidade.
Para Desfontaines, um dos
seus desafetos, Voltaire era não apenas
um péssimo escritor: era um ignorante
estouvado, uma cabecinha
bêbada de orgulho, um homem para
quem nada era sagrado, nem os
costumes, nem o decoro, nem a
compaixão, nem a verdade, nem a
religião. Para Montesquieu, Voltaire
era um pequeno burguês, ambicioso
e agitado, divertido e inteligente, porém
irritante. Voltaire não é ideal, é
apenas passável. Será uma vergonha
para a Academia acolher Voltaire;
mas um dia será vergonhoso não têlo
acolhido.
Arouet foi convidado, ou melhor, recrutado,
pela corte da duquesa du
Maine, onde figuravam poetas jovens,
talentosos e brilhantes. Acabou
pondo seu talento e sua pena à disposição
dos inimigos do regente, tido
por ele como um novo Lot, e sua filha,
a duquesa de Berry, como uma
nova Messalina, o que lhe valeu o
confinamento em Tulle. M. Arouet
conseguiu que o lugar de desterro
fosse Sully-sur-Loire, onde parentes
poderiam ajudar na correção de sua
imprudência e esfriar um pouco o seu
temperamento inquieto. Do exílio
escreveu pedindo perdão ao Regente.
De volta a Paris, reatou com a
duquesa du Maine, Malézieu e a
corte de Sceaux. Sentindo-se prejudicada
na luta sucessória, a duquesa
fomentou uma conspiração, em 1717,
onde incitava todos os escritores de
sua corte, entre eles Arouet, a fustigar
o Regente com libelos, sátiras e
poemas infamantes.
Preso, Arouet passa 11 meses na
Bastilha, onde escreve La Henriade
(por falta de papel vai guardando os
versos de cor). Ao sair da prisão,
Arouet mudou de nome, um anagrama
de Arouet L(e) (J)eune; na época,
a transformação do “u” em “v” e do “j”
em “i” era perfeitamente regular. A
mudança de nome significava afastamento
de suas origens burguesas,
integrando-o a uma aristocracia do
espírito, tão valiosa quanto a do berço.
Ao mesmo tempo, pedia publicamente
que se esquecessem dos excessos
de sua pena.
Recém-saído da Bastilha, Voltaire
brilhou com a peça Édipo, que segundo
ele, estava mais perto da perfeição
do que fora possível a seus
antecessores, referindo-se a Sófocles
(demasiado bárbaro) e Corneille (de
uma rudeza insuportável). O sucesso,
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porém, não o satisfez. Pretendia a
consagração do Regente. Este relutava,
mas acabou concedendo-lhe
uma medalha de ouro, sem, no entanto,
aceitar que Édipo lhe fosse
dedicado.
A segunda passagem de Voltaire
pela Bastilha está diretamente ligada
aos seus desentendimentos com um
representante da nobreza. O cavaleiro
Gui Auguste de Rohan (Rohan-
Chabot), de importante família francesa,
primo do Cardeal de Estrasburgo,
era um personagem insignificante,
um aristocrata cuja nobreza limitava-
se às origens. Irritou-se com o
plebeu Arouet por ter este conquistado
as graças da corte e cometido o
pecado de acrescentar uma partícula
ao nome (de Voltaire). Após vários
desentendimentos verbais entre os
dois personagens, num dos quais
Voltaire teria usado de escárnio em
sua réplica (não carregava um grande
nome, porém sabia honrar aquele
que arrastava e, ainda, eu estou começando
o meu nome, ao passo que
o senhor está acabando com o seu),
Rohan-Chabot armou uma emboscada
contra seu desafeto.
Espancado por arruaceiros, Voltaire
resolveu fazer queixa à polícia, tendo
a solidariedade do duque de Sully.
Entretanto, apesar de talentoso, Voltaire
não passava de um burguês e,
sendo assim, nem mesmo Mme. de
Prie, sua protetora (e amante do primeiro
ministro, duque de Bourbon),
ficou do seu lado. Não houve intervenção
da rainha e somente foram
punidos os agressores de aluguel.
Além de não ter escandalizado ninguém,
o acontecido ainda mereceu
críticas, entre as quais as de Montesquieu.
Convencido de que nada conseguiria
nos tribunais, Voltaire se
dispôs a um duelo: refugiou-se no
interior, tomou aulas de esgrima e
exercitou-se com a pistola. Em sua
volta a Paris, foi capturado pela polícia.
Nessa época, Voltaire tinha 32
anos. Foi sua segunda passagem
pela Bastilha, onde ficou do dia 18 de
abril a 2 de maio, quando seguiu para
o exílio na Inglaterra (sob forte escolta),
onde ficou por 30 meses.
A passagem pela Bastilha e o exílio
na Inglaterra provocaram uma mudança
na vida, na obra e na elaboração
do pensamento de Voltaire. Ele
estava mudado pela experiência inglesa,
mas, como sempre, dominado
pelas três paixões que lhe dominavam
a existência: o dinheiro, a religião
e a literatura. Aqui aconteceria a
metamorfose do homem de letras em
filósofo e o encontro com a obra de
Newton. Inaugurando seus dotes
jornalísticos, foi responsável pela
divulgação da história da maçã a partir
de uma visita sua à casa de uma
sobrinha de Newton.
Voltaire estava deslumbrado com a
modernidade inglesa e com a constatação
do atraso francês. Da Inglaterra
guardaria o gosto da liberdade e
da tolerância, da modernização, da
utilidade coletiva, da intervenção dos
escritores na vida pública, o grande
chamamento ao exercício da razão e
do espírito crítico. A filosofia o afastaria
definitivamente de Versalhes.
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Écrasez l’infâme – Esmaguem a infame.
O bordão que costumava utilizar
não designava somente a superstição;
com ele, Voltaire procurava
atingir a religião como um todo. E,
como era conveniente escolher um
alvo bem definido, preferiu a religião
católica entre as demais, e os jesuítas
entre todos os outros eclesiásticos.
A escolha da religião, segundo
Lepape (1995), foi imposta mais pelas
necessidades da propaganda do
que pelas convicções pessoais de
Voltaire. Ao que tudo indica, ele ainda
conservava boas lembranças de seus
dias de estudante no Louis-le-Grand
e, inclusive, mantinha correspondência
cordial com seus antigos professores.
Os jesuítas eram temidos pela
sua influência, atacados pelas suas
regalias e acusados de querer o controle
da Igreja. No plano intelectual,
eram os adversários mais temíveis
dos filósofos por seu domínio sobre
as mentes, pois controlavam o que
havia de essencial no ensino.
A paixão pelo dinheiro, tão ridicularizada
por todos, era, para Voltaire,
uma necessidade vital, e ele se empenhou
desde cedo para a consecução
desse seu objetivo. A morte de
seu pai não lhe garantiu a independência
financeira, mesmo porque ele
lhe deixara em testamento todos os
bens de que dispunha aos prováveis
futuros netos. Somente 8 anos depois
o testamento foi anulado e Voltaire
pôde usufruir da herança, sendo esta
ainda insuficiente para se igualar ao
estilo de vida da aristocracia.
A partir de 1722, Voltaire mergulhou
nos negócios com uma intensidade e
falta de escrúpulos admiráveis, mas,
apesar disso, levava uma vida financeira
de altos e baixos. Em 1728,
recebeu da Rainha uma pensão, a
qual aplicou em uma loteria que fraudava
o Estado. A maneira como Voltaire
adquiriu sua fortuna jamais lhe
causou qualquer constrangimento.
Segundo ele, decência era algo muito
próximo do luxo. Conquanto se utilizasse
de recursos muitas vezes escusos
para angariar fundos para sua
campanha filosófica, entendia como
abominável o fato de a igreja também
se dedicar, como ele próprio, a investimentos
como o tráfico de escravos.
Abomináveis cristãos, os negros que
vocês compraram a um mil e duzentos
francos valem mil e duzentas
vezes mais do que vocês. Foi nomeado
gentil-homem ordinário do rei e
historiador oficial da França, com
soldo de duas mil libras e direito de
entrar no quarto do rei. Afinal, eis-me
feliz neste mundo, escrevia com vergonha
e zombando de si mesmo.
A academia era vista como uma segurança
de Voltaire contra os ataques
dos adversários, uma forma de
ganhar para suas idéias os órgãos do
poder literário, sendo sua aspiração
maior conquistar o rei, seduzir a elite
letrada e difundir sua filosofia. Para
entrar na academia, de certa forma
renegou as Cartas Filosóficas: jamais
lhes dei esse título tão faustoso. Atribuía
a existência delas à falsificação.
Primeiro abriu espaço para os amigos;
depois, contando com o apoio
dos que já estavam lá dentro, alcanPIMENTA,
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çou seu inteiro controle. Quando morreu,
a academia era quase cem por
cento voltaireana. Em vez de conseguir
aliados, apenas conseguiu a
hostilidade daqueles escritores (em
grande parte anônimos), que o atacavam
pela sua sovinice, sua vida
privada, suas idéias, suas lisonjas,
seu desprezo pelos escritores sem
renome, seu frágil sentimento patriótico.
Usou o poder para atacar seus
inimigos.
O sucesso literário de Voltaire não
corresponde a qualquer modernidade,
moral ou estética. Em verdade,
ele não inovou, apenas imitou com
perfeição os modelos antigos; não
criou um gênero novo e construiu sua
fama nas alturas daqueles gêneros
tidos como os mais nobres. Respeitava
o público e a estética dele e,
dizem, que sua única audácia foi
matar a heroína em cena na tragédia
Mariamne. Porém,
estava convencido que as palavras
podiam dizer tudo aos que soubessem
ler, por pouco que fosse o talento
de quem as manejasse. Seu
grande desafio vinha dessa total
confiança nos poderes da literatura.
A ela caberia derrubar os obstáculos
entre o mundo dos doutos
e o das pessoas comuns. O escritor
cuidaria de manter abertas as
passagens, aboliria as fronteiras
entre a ciência dos eruditos e um
público ainda governado pelos preconceitos
e emoções. (Lepape,
1995:107)
Utilizou com perfeição os gêneros
tradicionais (a tragédia, o poema satírico
e o didático, o conto com moralidade
filosófica, a correspondência) e
inventou outros gêneros, como a divulgação
científica, o jornalismo de
opinião e o panfleto de agitação cultural.
Voltaire não escrevia para o rei,
como era comum na época. Escrevia
para o público, a quem pretendia
pouco a pouco convencer de sua
força como entidade coletiva em relação
ao Estado. Sua literatura procurava
atacar aqueles tipos e símbolos
de um modo de ser e de um modo de
pensar que não eram mais satisfatórios,
mas que ainda subsistiam. No
entanto, para Voltaire, ainda era preciso
haver lagartas para que os rouxinóis
comessem e cantassem melhor.
Utilizou com maestria algumas estratégias
discutíveis, todavia bastante
eficazes. Uma delas – o factótum –
era a alegação de que uma obra sua
era de outro, ou que se tratava de
rascunho roubado e adulterado pelo
editor. A polêmica acerca da veracidade
dessas afirmações chamavam a
atenção do público, ficando mais que
divulgada a obra em questão. Outro
artifício era o costume que tinha de
imprimir a mesma obra em Londres e
Amsterdã (onde não era proibida) e
em Rouen ou Paris (onde era proibida).
Então acusava o editor francês
de pirataria e apropriação indébita, o
que podia levar o editor à prisão. Enquanto
a polícia se empenhava em
descobrir e apreender a edição francesa,
a edição feita no exterior passava
pela fronteira. A perseguição
dava fama ao livro e o público o disPIMENTA,
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putava. Outras vezes, apresentava
alguns trechos de suas obras aos
amigos. Alguns copiavam cantos, o
autor fingindo que não via. A história
se espalhava e todos queriam conhecer
a obra. Saíam edições que Voltaire
adiantava-se em negar que fossem
suas. Fazia questão de negar a autoria
de um texto até ter certeza de que
estava sendo bem recebido.
Quando os irmãos Cramer passaram
a ser os novos editores de Voltaire,
acataram como estratégia para difusão
em toda a Europa a impressão
de obras pouco volumosas, que poderiam
atravessar as fronteiras em
pequenos pacotes e serem escondidas
nas capas dos livreiros, que
costumavam levar as encomendas à
casa do cliente. Isso permitia também
um preço mais acessível. Voltaire
começou a escrever o Dicionário Filosófico
com o intuito de ultrapassar
Diderot naquela área que realmente
interessava – a das idéias. O formato
dado ao dicionário, e daí o fato de têlo
chamado Portátil, era mais uma de
suas estratégias e dos editores Cramer
para divulgar a obra em toda a
Europa. Segundo Chauí (1988), o
sucesso conferido ao livro foi não
somente sua fácil circulação devido a
seu formato. O principal motivo de
sua aceitação foi seu conteúdo, que
constituía um sólido alimento intelectual
para todos os descontentes
com a ordem então vigente. Foi o
primeiro livro de bolso e constituiu-se
num poderoso instrumento revolucionário
(...).
Vemos em Cândido, publicado em
1759, que Voltaire desistira da aliança
com o rei. Voltar-se-ia para a opinião
pública, da qual esperava ajuda
para sobreviver. Com Cândido, Voltaire
inaugurou uma terceira fase – a
de divulgador de idéias para um público
diferenciado, não mais para a
nobreza e a intelectualidade. Sua
meta era o cidadão comum, geralmente
da burguesia, parcela já letrada
mas que ainda não tinha acesso
às grandes divagações filosóficas. O
terremoto de Lisboa, que atingiu também
Cadiz, Tanger e Meknes, deixou
Voltaire impressionado. A providência
caiu de quatro, o tudo vai bem e o
otimismo estão de crista baixa. Estava
pronto o refrão do melhor dos
mundos possíveis que iria pontuar
ironicamente o Cândido, segundo
Lepape (1995). Esse livro
marcava a adesão de Voltaire ao romance,
um gênero classicamente considerado
menor na hierarquia da produção
literária. O grande poeta clássico,
cujas peças e poemas os leitores
cultos sabiam de cor, escolhia como
arma para a batalha filosófica as banalidades
da matéria romanesca: amores,
tempestades, naufrágios, atos de
gratidão, prisões, ressurreições, duelos,
galeras, perseguições, escravidão.
O objetivo não era suscitar a admiração
dos colegas, nem aperfeiçoar a
imitação dos modelos tradicionais, porém
tocar o coração do grande público,
emocioná-lo, provocar-lhe o riso e levá-
lo à reflexão, mediante a exploração
de mil variações agradáveis ou
dramáticas de um tema simples: a liqüidação
de todas as ideologias enganosas,
que procuravam esconder do
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homem o absurdo de seu destino, e a
construção lenta, trabalhosa, modesta
de uma sociedade relativamente feliz,
um jardim a ser cultivado. A fim de
passar adiante as suas mensagens,
Voltaire valeu-se da ironia, da calma
desmistificação da vida, do burlesco,
do picaresco e da imaginação; desse
modo, punha claramente em cena uma
política do estilo: não ganharia a opinião
pública com livros volumosos, caros
e repletos de elevados conhecimentos,
de tratados ou discussões filosóficas;
uma vez tomada a decisão de apoiarse
no público, convinha dar aos textos
as melhores condições de divulgação.
(Lepape, 1995:219).
O livro foi impresso em sigilo, remetido
para Paris e impresso simultaneamente
em Lyon, Avignon, Liége,
Londres e Amsterdã. Voltaire negou
ser o autor do livro. Cândido é o
grande clássico do autor, obra em
que combate o otimismo metafísico e
a teoria da harmonia preestabelecida.
Voltaire foi o mais fecundo correspondente
de todo o século XVIII. Em
sua Correspondência (treze volumes
na edição da Pléiade), retrata não só
suas idéias, mas também descreve
seu cotidiano e seu lado romântico,
nas cartas que escreve para sua sobrinha
e companheira, Mme. Denis. A
carta, no século XVIII, era um gênero
literário como outro qualquer, não se
constituía apenas em um meio de
troca de idéias entre duas pessoas. A
menos que fosse previamente estabelecido
o seu caráter confidencial,
eram escritas, difundidas e muitas
vezes publicadas. E Voltaire soube
utilizar-se das cartas para difundir
suas idéias. Era corriqueiro o fato de
divulgar e publicar tanto as cartas
que enviava quanto as que recebia.
Nas mais de 10 mil cartas que deixou,
enviadas a personalidades as
mais distintas – abades, intelectuais,
reis e até mesmo o papa – trata das
mais diversas questões, no tom que
convém a cada um deles. Faz política,
lisonjas, intrigas, guerra declarada
contra a intolerância e o fanatismo.
Em 1760, Voltaire mudou-se definitivamente
para Fernex, que batizou de
Ferney, na fronteira da França com a
Suíça. Enfim, pôde pôr em prática um
modo filosófico de ser fidalgo rural:
plantava, fazia experiências agrícolas,
introduziria o bicho-da-seda
(confiou a manufatura ao filho de
Calas), dirigia ele mesmo o corte da
madeira destinada a suas construções,
difundia normas de higiene,
encorajava a vacinação, promovia a
confecção de rendas e a fabricação
de relógios. Ferney transformou-se
em uma espécie de principado, no
qual ele se esforçou para reinar,
como senhor, como proprietário,
como legislador e até mesmo como
uma espécie de pároco.
Segundo Lepape (1995), Ferney tornou-
se a Roma da Filosofia, de onde
se expediam bulas, encíclicas e excomunhões;
era também o seminário
em que os jovens noviços recebiam a
unção ‘voltaireana’ antes de sair ao
mundo a fim de pregar a verdade.
Também representava o ponto de
partida dos ataques do filósofo contra
a intolerância, o fanatismo e todas as
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formas de injustiças praticadas em
nome da religião, como os casos
Calas, La Barre, Sirven, que o tornaram
popularmente conhecido. Ferney
era, ainda, um modelo ideal de cidade,
patriarcal em sua forma de governo,
moderna em sua economia,
tolerante no modelo de pensar e disciplinada
pelos refinamentos da cultura
e da elegância dos costumes.
Em 10 de março de 1762, no ano do
bicentenário da Noite de São Bartolomeu,
foi supliciado em Toulouse o
comerciante huguenote Jean Calas,
acusado injustamente de ter matado
o filho, que pretendia se converter ao
catolicismo. Voltaire soube do caso a
partir da visita de um protestante que
se deteve em Ferney. Estava criada a
ocasião propícia para Voltaire sair em
sua cruzada contra a intolerância e o
fanatismo, sem, entretanto, deixar
explícitos os seus objetivos e sem a
necessidade de chocar-se de frente
com esses temíveis poderes. Dispunha
de três armas poderosas para
sair a campo: a fortuna, o temor que
suas idéias suscitava e as relações
de que dispunha.
As cartas de Voltaire saíram às centenas,
endereçadas a reis, ministros,
grandes senhores e prelados. Encarregou
os enciclopedistas de espalharem
inúmeras brochuras propagandistas
que mandou imprimir na Suíça.
É preciso que sejam espalhadas por
todos os lugares – diz a D'Alembert –
que com elas se inunde Paris, que
todo o público fique a par desses
horríveis acontecimentos. Fez vir a
Paris a viúva de Calas, que foi apresentada
aos salões e círculos influentes,
a suas expensas. Mobilizou
tudo e todos em sua campanha. Toda
a Europa comoveu-se com a denúncia
de Voltaire, tornando-se favorável
a Calas. Tornamo-nos motivo de
horror e desprezo na Europa, fico
indignado com isso. Para a honra da
França, é importante que o julgamento
de Toulouse seja confirmado
ou condenado.
Uma de suas estratégias foi manter
inédito até dezembro de 1762, o
Tratado sobre a Tolerância, a fim de
que não fosse perturbado o trabalho
de revisão do processo. Outra era
contrapor a província – intolerante,
preconceituosa, bárbara – a Paris –
moderna, polida, culta.
Voltaire atiçava aquele parisianismo.
Não se limitava a lisonjear aquela Paris
esclarecida que fremia de indignação
com as desgraças de Calas e se
insurgia contra os seus carrascos;
apresentava Paris como um modelo
oposto ao da França provinciana e rural,
mal polida, ignorante, ingenuamente
manipulada pelos padres,
aberta a todos os excessos de fanatismo.
(...) estava também respondendo
a Rousseau e sua exaltação do
primitivismo, sua religiosidade patriarcal,
sua denúncia da decadência moral
e da hipocrisia da sociedade civilizada.
(Lepape, 1995, 229)
Sua indignação se estendia a todos
os franceses, que também deviam
indignar-se e combater a intolerância
e a superstição:
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Clama-se que somos uma nação
odiosa, intolerante, supersticiosa,
tão atroz quanto frívola, que passas
das noites de São Bartolomeu
para a ópera cômica, que sabe
torturar inocentes, mas não sabe
combater nem na terra nem no
mar. É triste ter de ouvir essas críticas
vergonhosas.
Em 1765, Voltaire envolveu-se no
caso La Barre. Jean François de Le
Fabvre, cavaleiro de La Barre, foi
acusado de mutilar um crucifixo da
ponte de Abeville, juntamente com
outros dois rapazes. La Barre foi o
único condenado à morte. Teve a
língua retalhada antes de ser decapitado
e, juntamente com seu corpo,
mandaram lançar às chamas um
exemplar do Dicionário Filosófico,
apreendido em uma busca na casa
do jovem cavaleiro. O envolvimento
do Dicionário no caso deixou Voltaire
amedrontado, pois ergueram-se vozes
pedindo que ele fosse julgado
como cúmplice e instigador do “crime”
de Abeville. Voltaire escreveu a
Frederico II e a outros filósofos. Propôs
a criação de uma “colônia filosófica”,
onde poderiam se refugiar da
intolerância, do fanatismo e das perseguições
– bem longe de França e,
quem sabe, na Prússia, sob a proteção
de Frederico II. A idéia jamais
viria a se concretizar.
Sollers (1994) diz que Voltaire não só
não temia a notoriedade como a converteu
em sua principal ferramenta de
combate. Em 1765, atingiu popularidade
semelhante à dos astros internacionais
de hoje. Foi o primeiro a
alcançar tal posição no domínio das
letras. Tinha, afinal a posse de um
poder que não lhe fora dado por ninguém
e nenhuma instituição. Era
fruto de sua glória artística, um atestado
do apreço do público àquilo que
escrevia. Com seu olhar múltiplo e
sua sagacidade
dava a impressão de estar em toda
parte, em todos os debates, em todos
os livros que apareciam, em
todas as peças que subiam ao palco,
em todas as intrigas que se teciam
e desteciam. Vivenciava, assim,
uma de suas obrigações de
escritor-filósofo, a onipresença, que
se fazia ainda mais exigente em
conseqüência de seu distanciamento
do cadinho parisiense. Já
que se pretendia a consciência de
seu público, devia ter a responsabilidade
por tudo, sem no entanto
abdicar de sua função de escritor.
(Lepape, 1995:244)
O auge da publicidade e do sucesso
junto ao público, inclusive a população
iletrada, que não acompanhava
seus debates literários, deu-se em
função de sua indignação e do fervor
com que levantou a opinião pública
nos casos Calas, La Barre, Sirven e
outros. Passou a ser idolatrado. Surgiram
em abundância toda sorte de
souvenirs – medalhões, bustos, silhuetas,
moedas, relógios –, que traziam
sua figura estampada. Segundo
Sollers, em torno de Voltaire montouse
o primeiro merchandising cultural
da modernidade. A opinião pública
era uma nova fonte de poder, maior
que a genealogia, que as armas, que
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a própria igreja.
Depois de 30 anos longe de Paris, os
amigos de Voltaire começaram a articular
seu retorno e, para concretização
do fato, fez-se necessária a concordância
do rei.
Em 16 de maio de 1774 morreu Luís
XV. Luís XVI, que na época tinha 20
anos, não tinha para com Voltaire
uma disposição melhor que a de seu
avô, mas, segundo o rei, não havia
proibição oficial; apenas foi participado
a Voltaire que seria preso caso
viesse à capital. Mas, se por acaso
houvesse a representação de uma
peça de Voltaire e este fosse convidado
a ver o espetáculo, Versalhes
ignoraria a presença dele na temporada.
Não, o aparecimento de um vidente,
de um profeta, de um apóstolo, não
causaria mais surpresa e admiração
do que a chegada de M. de Voltaire.
Esse nosso prodígio anulou por um
momento todas as outras atrações. O
orgulho enciclopédico pareceu cair
pela metade, a Sorbonne estremeceu,
o Parlamento silenciou, o mundo literário
ficou emocionado, Paris inteiro
acorria para chegar aos pés do ídolo, e
jamais o herói de nosso século fruiria
de modo tão brilhante sua glória, se a
corte lhe houvesse dado a honra de
um olhar mais favorável ou pelo menos
não tanto indiferente. (La
Correspondance Littéraire, fev. 1778)
Em 30 de março de 1778, Voltaire foi
sagrado rei em Paris. Milhares de
pessoas passavam debaixo de sua
janela, na tentativa de vê-lo. Personalidades
da época iam à casa onde
se hospedava para ver, pedir conselhos
e incensar o novo orgulho francês.
Dizem que até mesmo Franklin
levou o neto, ao qual disse para pedir
benção ao velho. O velho abençoouo
em nome de Deus e da Liberdade.
(La Correspondance Littéraire, fev.
1778). Também recebeu uma delegação
da Loja Maçônica, a qual fez
dele uma espécie de maçom honorário.
No percurso entre sua casa e a Academia
Francesa, recebeu a homenagem
de milhares de pessoas que se
enfileiravam ao longo do percurso.
Paravam a carruagem, pediam a mão
do filósofo para beijar e arrancavam
pêlos de sua peliça. Na comédia
francesa, Irène, uma de suas últimas
peças, foi apresentada em meio aos
aplausos e Voltaire foi coroado de
louros. Instalaram seu busto em um
pedestal e o cobriram de guirlandas,
pétalas e fitas.
Comentário de Voltaire a Frederico II:
É portanto verdade, Sire, que os homens
terminam por esclarecer-se, e
aqueles que se julgam pagos para
mantê-los cegos nem sempre são os
encarregados de vazar os seus
olhos.
Voltaire morreu em Paris em 30 de
maio de 1778. Tiveram que ocultar
sua morte à multidão estacionada
debaixo de suas janelas. Disseram
ao povo que ele decidira voltar a Ferney.
Embalsamaram seu corpo, depois
de haverem retirado seu coração
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e seu cérebro. O coração, retirado
por Villete, está na Biblioteca Nacional
de Paris. Foi enterrado às escondidas
na abadia de Sellières. Seu
derradeiro bilhete diz que morria admirando
os amigos, sem odiar os
inimigos e detestando a superstição.
Em 11 de julho de 1791, treze anos
depois de sua morte, seus restos
mortais foram considerados propriedade
da nação francesa, sendo levados
a Paris com grande pompa.
Aproximadamente 500.000 parisienses
acompanharam o cortejo. Diz-se
que a multidão cantava trechos de
uma música composta para a ocasião:
Que os nossos cantos de alegria
acompanhem as cinzas do mais ilustre
dos Franceses. Ah, Voltaire é
concidadão de todos os mortais que
não são escravos! (Sollers, 1994:59)
Foi enterrado ao lado de Rousseau e,
segundo Lepape, há
uma lenda segundo a qual os dois irmãos
inimigos foram clandestinamente
exumados pelos ultra-realistas em
maio de 1814 e seus restos abandonados
em um terreno baldio. A paixão
sacralizada nunca se extingue: ela cria
seus próprios romances. (Lepape,
1995:285).
Se a corte de Luís XIV o tivesse
acolhido melhor, se não o tivessem
mandado encarcerar por duas vezes
na Bastilha, se não o tivessem exilado,
poderia haver, simplesmente,
notícias de Voltaire por suas qualidades
de bom versejador, por sua habilidade
estética, pela elegância de
suas tiradas satíricas. Sollers (1995),
diz que
por sorte, os fados, ao tornarem impossível
a sua modesta ambição primária
de conviver com aristocratas,
obrigaram-no a assumir um destino
muito mais notável e distinto: converter-
se em monarca sem coroa - com
um gorro de dormir e chinelos de
quarto - de todo o seu século.
Naqueles anos, toda a França vivia
sob vigília constante da igreja, sob a
influência de seus dogmas e presa da
superstição e do medo. Se para
quem professava a religião católica,
aqueles eram tempos difíceis, imaginemos
o que era ser protestante e
assumir sua fé. Os huguenotes, os
poucos que sobraram na França depois
da revogação do Edito de Nantes
em 1685, por Luís XIV, eram alvo
de vigilância constante, não só por
parte das autoridades oficiais e eclesiásticas,
mas por todo o povo católico,
que se sentia incomodado com o
jeito diferente deles. Aliás, os calvinistas
franceses eram chamados
pejorativamente de huguenotes, talvez
por causa do vocábulo huguon
(que em Turena se aplicava às pessoas
que transitam à noite pela rua)
ou da corruptela da palavra alemã
Eidgenosse (que significa confederados)
ou de Hugon (os primeiros protestantes
se reuniam em cavernas
subterrâneas perto da porta de Hugon,
em Tours).
Toda essa intolerância religiosa marcou
profundamente a vida, a obra e
as idéias de Voltaire. Toda sorte de
injustiças, mormente aquelas praticaPIMENTA,
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das pela igreja e em nome da religião
tornaram-se a principal mola propulsora
de seus ataques ferinos, de
seus panfletos e de suas cartas, em
que denunciava e convocava a opinião
pública a tomar partido.
Vimos que não foi bem dessa forma
que Voltaire começou a sua atividade
literária. Na primeira parte de sua
vida, quando ainda contava com as
graças da corte, apenas manipulava
as palavras com habilidade, tendo
como único objetivo a sátira de costumes
e o estar bem naquele ambiente
que tanto o fascinava. Com a
segunda passagem pela Bastilha e
sua conseqüência direta – o exílio
para a Inglaterra – Voltaire entraria
em contato com uma nova visão de
mundo. A Inglaterra fascinou o filósofo
pela modernidade, pela tolerância
de suas leis, pela intervenção dos
intelectuais na vida pública e até
mesmo pela constatação do valor
que os ingleses davam aos seus artistas
(escritores, atores, cantores,
etc.) e o pouco valor que lhes davam
os franceses. Aí aconteceria a primeira
mudança em suas idéias. O versejador
habilidoso transformar-se-ia
em filósofo. Não importava apenas
satirizar. Era necessário utilizar o
conhecimento adquirido a bem da
razão e contra toda a espécie de
obscurantismo, de intolerância e de
medo. Era tempo de “luz”, e Voltaire
podia ser considerado um desses
focos de razão em prol da conquista
humana por liberdade, felicidade social
e civilização. Nessa fase, Voltaire
era o intelectual da academia. Escrevia
para seus “iguais”, filósofos, enciclopedistas,
intelectuais da nobreza e
toda a aristocracia culta da Europa.
Temos nessa fase a elaboração e
construção de grande parte de sua
obra, sua participação na academia,
na Enciclopédia, seus contatos com
Frederico II da Prússia, sua vida com
Mme. Chatelêt, sua corrida desenfreada
pelo dinheiro e as estratégias de
impressão e divulgação de suas
obras, bem como sua peregrinação
pela Europa em busca de um porto
seguro, longe da ameaça de seus
adversários, longe das conseqüências
dos excessos de sua pena.
Mudou-se para Ferney, aquele porto
seguro que almejava desde então. Aí
estabeleceu seu principado, de onde
enviaria seus dardos com segurança
e perspicácia. O filósofo, a despeito
de estar longe da corte, comandava
uma verdadeira rede de intrigas, tendo
Ferney como ponto estratégico de
manipulação de interesses. De Ferney,
Voltaire via o mundo, com o qual
mantinha contato por meio das visitas
e também das cartas que enviava e
recebia. Sabia de todas as intrigas e
se metia em todas elas, como os casos
de intolerância religiosa mais
famosos – Calas, Sirven e La Barre.
O terremoto de Lisboa atingiria também
nosso filósofo, que não pretendia
mais ser apenas o escritor admirado
pela aristocracia do espírito,
como dizia. Importava agora difundir
idéias para o grande público, emocioná-
lo, provocar-lhe o riso e levá-lo à
reflexão. Ainda se valia da ironia, do
burlesco e da imaginação, que soube
aprimorar ao longo do tempo. A opinião
pública era o que importava.
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Importava insuflar a dúvida, a desmistificação
da vida naquela parcela
que não comungava com os debates
sofisticados da academia e que não
era consumidora dos grandes tratados
ou das discussões filosóficas.
Para tanto, era necessário recorrer a
um gênero que estava amplamente
difundido entre os cidadãos comuns
– o romance –, tido como gênero
inferior na “hierarquia da produção
literária”. Estava feito o convite à razão,
que levaria paulatinamente o
cidadão comum a compactuar com
as idéias que até então circulavam
somente nos redutos da intelectualidade.
Estava feito o convite ao cidadão
comum, que também precisava
conquistar a razão para evoluir, progredir
e tornar-se perfeito ou civilizado.
Era um basta ao medo, ao obscurantismo,
ao irracionalismo dos dogmas
da Igreja Católica.
De maneira geral, Voltaire e as idéias
iluministas significaram uma postura
crítica e combativa a todas as tradições,
sendo seu objetivo principal a
libertação dos indivíduos para a descoberta
de seu poder de manejar a
natureza, dominando-a conforme os
seus próprios desejos, o que não só
permitiu ao homem reconhecer-se
como parte integrante da natureza
mas que, sobretudo, o emancipou da
superstição e do dogma, promovendo
a sua autonomia. Liberto do autoritarismo,
do poder absoluto, da fé, da
superstição, do medo e do dogma
religioso, o homem podia alcançar a
crença na luz da razão humana e
com ela combater todas as formas de
obscurantismo. O homem tornava-se
sujeito e dono do seu destino. Significava
também uma nova etapa na
história da civilização a partir da noção
do progresso sob a luz da razão,
da ciência, da observação e da experimentação.
Como disse Sollers (1995), Voltaire
faz-nos falta nesse fim do século XX,
decididamente surpreendente. O
“estalajadeiro da Europa” faz-nos
falta em meio a tanta ignorância, superstição,
estupidez, crueldade, facécia!
E Voltaire, em uma de suas declarações
a Mme. Denis, teria dito:
“Tentaram enterrar-me, mas esquiveime
disso. Boa noite!”
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E-mail: jspimenta@mail.ufv.br

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