Bisturis que fizeram história
Em Salvador, 16 de Maio de 2008 - Primeira escola de ensino superior do Brasil, legado do príncipe regente Dom João VI em sua passagem por Salvador, na viagem que tinha por destino o Rio de Janeiro, onde estabeleceria a Corte Real Portuguesa, a Faculdade de Medicina da Bahia (Famed) completou 200 anos no dia 18 de fevereiro deste ano. A efeméride praticamente passou despercebida pela mídia, ao contrário da recente polêmica criada por seu coordenador acadêmico Natalino Dantas, que justificou o baixo desempenho dos alunos no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) como conseqüência do baixo QI dos baianos, reflexo da cultura primitiva que teria o berimbau como símbolo.
"O berimbau é um instrumento primitivo, com apenas uma corda, que não exige muito esforço intelectual", afirmou Dantas, ferindo o orgulho e provocando a revolta de vários segmentos de uma sociedade, onde há um provérbio que diz "baiano burro nasce morto". As diatribes do professor não pouparam o Olodum, afirmando ser a música tocada pelo grupo apenas zoada. A polêmica resultou em protestos de todos os lados, do escritor João Ubaldo Ribeiro, que o acusou de racista, ao governador Jaques Wagner, que afirmou ter o coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) sofrido "um surto de imbecilidade".
O Olodum, por sua vez, entrou na Justiça, denunciando Dantas por crime de racismo. Depois de sempre declarar-se sincero em suas opiniões, rechaçadas pela congregação da Faculdade de Medicina e pelo reitor da Ufba, Naomar Almeida, o professor Natalino Dantas, no último dia 5, renunciou ao cargo de coordenador do curso e distribuiu nota pública se retratando pelo dito. Aos 69 anos, ele pretende se aposentar em paz dentro de alguns meses, quando completará 70 anos.
Opiniões polêmicas do professor à parte e afora a qualidade de ensino - o baixo desempenho apresentado teria sido causado pelo boicote dos alunos ao exame -, a bicentenária faculdade poderia ter chamado a atenção da sociedade por outras razões.
Em seus 200 anos de história, acumulou um acervo que conta boa parte da História do Brasil, porém, está ameaçado de ser perdido pela falta de condição de manutenção e pela necessidade urgente de digitalização de todo este material. "São 6 milhões de folhas sob o risco de acidez, umidade, ácaros e insetos. O papel adoece", alerta o médico José Tavares, diretor da Famed.
É um conjunto ainda maior que o da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, uma das instituições mais antigas do País. O acervo documental da Famed reúne a memória histórica da faculdade, a vida escolar dos alunos, concursos para professores, livros raros, como "Fauna Brasiliensis", de Von Martius, e as teses doutorais que eram exigidas dos formandos até 1928. "O tratamento dos médicos como doutores advém da exigência dessas teses para a entrega do diploma. Mas originalmente, desde a Idade Média, esse título foi adotado pelos advogados e depois pela classe médica", explica Tavares.
A situação deste importante patrimônio histórico nacional é crítica. De acordo com o diretor da Faculdade de Medicina da Bahia, boa parte das primeiras três décadas da escola será perdida, caso a digitalização não for feita com urgência num prazo máximo de cinco anos. Empenhado na preservação da documentação histórica, Tavares conta indignado que, ao assumir a direção da faculdade, em 2003, encontrou apenas a capa das memórias da faculdade escritas pelo médico Alberto José Alves, pai do poeta Castro Alves. Formado na faculdade e depois professor, o pai de Castro Alves foi o introdutor da microscopia no curso de medicina.
Era uma tradição da faculdade, desde 1829, um professor ficar responsável em escrever a história do estabelecimento de ensino a cada ano. Para o médico Rodolfo Teixeira, autor do livro "Memória Histórica da Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus" (1943-1995), as memórias da escola constituem-se em uma interpretação de acontecimentos sociais e políticos que influenciavam a cidade, o estado e o País.
A falta de controle no acesso à documentação e a desorganização encontrada no acervo, instalado na sede histórica da faculdade, localizada no Terreiro de Jesus, levaram o diretor José Tavares a tomar uma medida emergencial. "Estava diante da perda de documentos importantes para a memória nacional. A saída foi propor ao curso de Arquivologia da Ufba a criação de um campo de prática, no qual os alunos organizariam o acervo", diz.
Com recursos de R$ 104 mil, conseguidos por intermédio de projeto apresentado à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Tavares conta que a documentação foi arquivada e identificada de acordo com cada ano e conteúdo, segundo as normas da Arquivologia. "Hoje sabemos o que temos, onde está e os riscos por que passam os documentos. Precisamos agora de recursos para preservar o acervo e digitalizá-lo para torná-lo disponível para pesquisas pública", explica.
No ano passado, o projeto para preservação e digitalização do acervo documental, inscrito na Lei Rouanet, que regulamenta incentivos fiscais para a cultura, foi apresentada ao Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Orçado em R$ 3 milhões, o projeto, segundo Tavares, foi reprovado, porque já tinham sido liberados recursos para outra proposta baiana na linha histórica.
A direção da escola aguarda a abertura de novos editais da Finep e BNDES para novamente apresentar o projeto, embora tenha esperança em sensibilizar a iniciativa privada e levantar os recursos com mais rapidez. "É uma parte importante da memória nacional que está ameaçada de ser apagada para sempre e que precisa ser recuperada", alerta o diretor
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