Alemanha lembra centenário de Simone de Beauvoir
Por ocasião dos cem anos do nascimento de Simone de Beauvoir, a mídia alemã lembra a filósofa francesa como precursora do movimento feminista e ícone do existencialismo ("hoje empoeirado") do último século.
Ainda num tempo em que vida e obra mantinham uma certa coerência e o mercado não pairava como instância máxima sobre a literatura, Simone Lucie Ernestine Marie Betrand de Beauvoir se afirmou como uma das principais intelectuais francesas no último século.
Nascida no bairro parisiense Montparnasse, no dia 9 de janeiro de 1908, filha de um advogado e de uma bibliotecária, terminou seus estudos de Filosofia, Literatura e Matemática na capital francesa no ano de 1929. A seguir, trabalhou como professora em Marselha, Rouen e Paris, tendo se tornado uma das primeiras mulheres a lecionar Filosofia da França.
Hoje, cem anos depois de seu nascimento e transcorridas mais de duas décadas após sua morte, em 1986, a herança deixada por Simone de Beauvoir é considerada mais atual que o legado de Jean-Paul Sartre, com quem a filósofa dividiu, de certa forma, vida e obra.
Vocabulário empoeirado
Das preocupações de seus biógrafos é ressaltar a pertinência da obra de Beauvoir, mesmo num momento em que o "vocabulário existencialista se tornou charmosamente empoeirado", descreve o diário alemão Die Welt.
A atualidade do pensamento de Beauvoir é detectada em sua perspicácia para desmascarar relações de poder (não apenas entre os gêneros) e estratégias de marginalização. Muito provavelmente nem A Dominação Masculina, de Pierre Bordieu, nem a discussão sobre gêneros da norte-americana Judith Butler existiriam sem o caminho trilhado anteriormente por Simone de Beauvoir.
Segundo ou outro?
Seu O Segundo Sexo (cuja tradução do original Le Deuxième Sexe para o alemão eliminou a hierarquia implícita no título, transformando o livro em O Outro Sexo), lançado em 1949, foi a pedra fundamental para os movimentos feministas que só viriam a eclodir décadas mais tarde. Ou seja, as reflexões da filósofa acerca do papel da mulher na sociedade viriam antes do advento da pílula anticoncepcional, da legalização do aborto e dos áureos tempos das revoltas de 1968.
Apesar ou exatamente por causa de suas posições iconoclastas para a época, foram vendidos mais de 20 mil exemplares do livro na primeira semana após sua publicação, envolvida em escândalos vários, entre estes a inclusão do volume na lista de livros proibidos pelo Vaticano.
Afirmações ambivalentes
"Até hoje a recepção da obra de Beauvoir permanece um paradoxo. O que se deve, em parte, à ambivalência de suas afirmações. Se por um lado ela aponta a estrutura de uma sociedade patriarcal, que marginaliza e discrimina as mulheres, por outro lado ela desmascara a participação das mulheres em sua condição de inferioridade", comenta o diário berlinense Der Tagesspiegel.
Em uma de suas frases célebres, a filósofa afirma que "não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres", salientando o peso da socialização e da herança cultural na definição do papel secundário designado às mulheres na sociedade, bem como a passividade das mesmas em aceitar o que lhes é imposto.
Contraponto ao neoconservadorismo
No entanto, nas comemorações dos cem anos de seu nascimento, são relembrados, além de O Segundo Sexo, também seu romances de teor autobiográfico, seus ensaios, memórias, relatos de viagem, diários e cartas.
Na Alemanha, foi lançada a biografia Sein wie keine andere. Simone de Beauvoir – Schriftstellerin und Philosophin (Ser como nenhuma outra. Simone de Beauvoir ¬– Escritora e Filósofa), de Ingeoborg Gleichauf, além de Simone de Beauvoir und das andere Geschlecht (Simone de Beauvoir e o outro sexo), de Hans-Martin Schöhnherr-Mann. No livro, o autor procura rediscutir as teses da filósofa francesa, ao contrapor suas teorias às de autores contemporâneos conservadores, que saem em defesa de valores tradicionais.
Acima de tudo, Simone de Beauvoir contribuiu para que "literatura, filosofia e política, até então registros distintos, passassem, indubitavelmente impulsionados pela fenomenologia, a formar um aliança, ", resume o diário suíço Neue Zürcher Zeitung. Aliança que até pode parecer embolorada, mas que, por sorte, morta certamente não está.
Centenário de Sartre sob o olhar alemão
Mídia alemã revisita as teorias do francês Jean-Paul Sartre durante comemorações do centenário do pensador e questiona o que sobrou da herança deste que foi o símbolo da intelectualidade no pós-guerra.
As relações de Sartre com a Alemanha não são isentas de contradições. Entre 1933 e 1934, o ainda jovem Jean-Paul passou alguns meses estudando em Berlim. Pouco depois da tomada do poder pelos nazistas. E não percebeu nada do terror totalitário que começava. "Este é um dos grandes enigmas de sua biografia", assinala o jornal alemão Rheinischer Merkur.
Confiança no poder da palavra
Mais tarde, depois de ser prisioneiro de guerra, Sartre viria a se tornar uma das vozes mais presentes no pós-guerra europeu. Considerado o "pensador da resistência", foi cultuado tanto dentro quanto fora da Europa. Um intelectual que, segundo o semanário Die Zeit, "tomou a tradição do Iluminismo francês e levantou a voz contra a injustiça e a opressão, confiando apenas no poder da palavra".
Estivesse esta opressão em forma de um autoritarismo colonial francês na Argélia, na política do Oriente Médio, nos dogmas aos quais as revoltas estudantis nas metrópoles européias se opunham ou na postura hegemônica branca européia em relação à África.
"Liberdade sob coação"
Um nome que não só esteve presente "enquanto o existencialismo esteve em moda", comenta o diário suíço Neue Zürcher Zeitung, mas que, "durante quatro décadas, representou toda uma época – o pós-guerra". Um pensador, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, analista político, que em 1944 provocou o establishment francês ao dizer que "nunca estivemos tão livres quanto sob a ocupação alemã".
Livres, segundo Sartre, porque submetidos a uma situação extrema de vigilância, ameaça, medo (de tortura, deportação). Uma situação na qual todos os modelos de ordem e orientação perdem a força e na qual o homem está condenado a contar apenas com si próprio.
Como explicar para as novas gerações?
E hoje, por ocasião do centenário do nascimento de Sartre (21/06/1905), pergunta a mídia alemã: o que sobrou de sua herança? Como traduzir Sartre para as novas gerações?
Fazer uso apenas das várias biografias publicadas talvez seja simplificar demais o significado de um pensador que via sua própria vida como experimento fiel ao que teorizava. Negando, com veemência, qualquer espécie de divisória entre o público e o privado. Vide o caráter quase encenado de suas relações (privadas, mas explicitadas ao público) com Simone de Beauvoir.
A grande dificuldade talvez seja separar Sartre da aura de "intelectual engajado", transformada em clichê e há muito ultrapassada. E revisar observações como as do filósofo Jacques Derrida, que perguntava em 1983, três anos após a morte do escritor, "que tipo de sociedade é a nossa, na qual um homem como esse pôde dominar a cena cultural e até se tornar famoso?"
"Schiller: Sartre do século 18"
Com o objetivo de destrinchar "outros Sartres" distantes do clichê que paira sobre a etiqueta de "intelectual engajado", vem sendo observada em Paris, depois da virada do milênio, o que o semanário Die Zeit chama de "sartremania". Um revival da obra do "homem do século 20", antes mesmo de ser um resgate do que foi "o filósofo do século 20".
Na Alemanha, esta tentativa de revisitar a obra sartriana vem encontrando ressonâncias através de uma série de lançamentos no mercado literário. Entre estes, é digna de nota uma recém-publicada biografia de Friedrich Schiller, na qual o autor presta seu tributo ao pensador francês ao subverter a cronologia, chamando o mestre do Classicismo alemão de "o Sartre dos século 18".
Derrida e Foucault
Se o homem Sartre – aquele que em 1964 se recusou a receber o Prêmio Nobel e dez anos depois visitava o terrorista alemão Andreas Baader na prisão – é há muito ignorado pelo establishment de ismos contemporâneos, a obra do autor de A Náusea e precursor, queiramos ou não, do pensamento francês do século 20, ainda persiste atual.
"Sair em busca de uma salvação da filosofia de Sartre não é hoje uma tarefa fácil, principalmente num momento em que o advento do pensamento pós-moderno parecia querer acabar com a filosofia sartriana calcada no sujeito. No entanto, olhando mais detalhadamente, teria sido possível reconhecer linhas de ligação entre Sartre e seus sucessores pós-modernos", observa o Die Zeit.
Além de ver em Derrida sinais das teorias anteriormente plantadas por Sartre, o semanário alemão aponta ainda referências ao pensamento sartriano na obra de Foucault, "cuja esperança de que deveria ser possível esboçar novas formas de subjetividade" já podem ser encontradas nos conceitos de "subjetividade sem identidade" apontados por Sartre.
Decadência no fim
Mesmo que em 1980 seu cadáver tenha sido levado por milhares de pessoas até o cemitério de Montparnasse, em Paris, o homem público Jean-Paul Sartre já havia até então sido enterrado.
Em seus últimos anos de vida, o pensador de outrora não era mais levado a sério. Debilitado em função da dependência de álcool e medicamentos, o homem dos óculos de aros grossos – que se tornaram ícones de uma geração de intelectuais mundo afora – havia se transformado, como conta o pensador palestino-americano Edward Said no belo ensaio Meu Encontro com Sartre, numa espécie de marionete dos que circulavam à sua volta.
No texto que relata um encontro de discussões sobre o Oriente Médio, ocorrido estranhamente no apartamento de Foucault em Paris, Said se depara com um Sartre fragilizado, monitorado politicamente por outros.
Representante de uma época
Existencialista, ateu convicto, cuja obra, como assinala o diário Neue Zürcher Zeitung, tem no conceito de abandono seu cerne. Um abandono que prevê a impossibilidade de encontrar realmente o outro – inclusive qualquer espécie de deus – e que antecipa o fracasso de todas as relações humanas.
"Profético e subversivo, Sartre apoiava-se na sociedade civil, em busca de uma alternativa qualquer, que ainda hoje existe. Este pesquisador da diferença continua sendo um visionário que soube destrinchar a permeabilidade das fronteiras, das quais falava Claude Lévi-Strauss. E que se tornou um pioneiro da interdisciplinaridade, que trouxe frutos à cultura francesa com suas incontáveis expedições para além dos limites estabelecidos dos saberes", conclui o diário Die Welt em artigo sobre o centenário do pensador.
Uma confirmação de que apesar das demolições públicas de suas teorias ao longo das últimas décadas, o legado de Sartre não está esquecido. A razão do enorme fascínio exercido por sua figura, comenta o Neue Zürcher Zeitung, está no fato de que "ele pode ter cometido erros com freqüência, mas fez isso representando toda uma época. Uma época que, nas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial, ainda queria acreditar na possibilidade de novas reinvenções e na reordenação da vida. Não importa se em questões amorosas ou políticas".
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