Certidão de nascimento do Brasil
Em Caminhos da Conquista, Ricardo Maranhão e Vallandro Keating contam detalhes da formação do território nacional
Durante oito meses, o historiador Ricardo Maranhão e o arquiteto Vallandro Keating realizaram um trabalho conjunto, pesquisando em papéis diversos como cartas, relatos de religiosos, testamentos, processos, inventários e documentos cartoriais, para conseguir o ineditismo: ilustrações de cenas decisivas dos primeiros três séculos da história brasileira nunca antes realizadas. ''Com um rigor levado ao extremo, conseguimos retratar momentos que, até então, só existiam em descrições'', conta Maranhão, lembrando ainda que, na confecção do livro Caminhos da Conquista, tanto ele como Keating evitaram as influências dos pintores românticos para compor seus desenhos. ''Artistas como Pedro Américo abusavam da imaginação e não retratavam fielmente o fato histórico.'' Maranhão recorda com emoção, por exemplo, do momento em que a dupla finalizou a pesquisa sobre a Jornada dos Milagres, acontecimento em que o português Jerônimo de Albuquerque surpreendeu os franceses, em 1614, e os expulsou do Maranhão. ''A ilustração que consta no livro é a primeira a mostrar aquele momento.''
É curiosa também a reprodução da área hoje ocupada pela cidade de São Paulo. ''A situação original de São Paulo é a de uma mancha de terrenos argilosos coberta de campos (''de Piratininga''), com elevações importantes, colinas entremeadas por cursos d''água freqüentes e caudalosos'', escreve Maranhão. ''Esses rios e riachos criaram várzeas extensas, lisas, muitas delas pantanosas, com a do Carmo.''
Colado ao texto, é possível visualizar, graças ao traço de Keating, a aldeia do cacique Tibiriçá que, em 1532, ficava próxima de onde hoje é o Jardim da Luz, no centro da capital paulista. Finalmente, com a chegada dos jesuítas, o primeiro colégio é erguido em 1554, passo inicial para a fundação da cidade - Keating também retrata o Pátio do Colégio, marco inicial de São Paulo, e as primeiras formações urbanas que logo configurariam a cidade.
Com uma formação em História que já ultrapassa os 40 anos, Ricardo Maranhão baseou-se não apenas na própria experiência como na pesquisa em mais de uma centena de documentos para detalhar a formação do Brasil. Assim, ele reservou papel de destaque para três tipos de personagem que foram decisivos na ocupação do interior do território.
Primeiro, a importância dos índios. ''Sem eles, a epopéia da conquista pelo branco não teria acontecido: eram os índios quem conheciam os caminhos e as trilhas, além de servirem também, muitas vezes, de intérpretes no contato com outros povos'', explica Maranhão.
Outro povo que deixou importante marca no desbravamento? Os escravos negros, que fugiram e fundaram quilombos em áreas que acreditavam estar longe do alcance dos brancos. O termo teve origem na língua quimbundo, da costa africana. Mas, para os portugueses do século 18, quilombo era ''toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles''.
O mais famoso foi o de Palmares, instalado em ricas terras no limite entre Pernambuco e Alagoas, onde, em 1630, se estabeleceu um grupo de 40 negros. O quilombo resistiu durante mais de 65 anos, até ser dissipado pela crueldade do bandeirante Domingos Jorge Velho, que decapitou o chefe do grupo, Zumbi, e a expôs no Recife.
Os bandeirantes, aliás, formam o terceiro grupo que teve vital importância na conquista do território brasileiro: os mestiços. ''Como não eram brancos puros e, por isso, não podiam participar do comércio estabelecido nas cidades litorâneas, eles eram obrigados a rumar para o interior para caçar índios, liderar expedições e, com o tempo, descobrir minas de ouro'', conta Maranhão que, entre os nomes de maior destaque, se lembra do de Raposo Tavares.
Entre as diversas regiões visitadas (leia no quadro ao lado), Tavares comandou a fantástica expedição à Amazônia, em 1640, missão reservada pelo duque de Bragança, interessado no ouro e riquezas do extremo oeste amazônico. ''O que a tropa não contava era enfrentar as terríveis dificuldades da selva e seu labirinto de cursos d''água, rios, riachos, paranás e igarapés ocultos pela espessa hiléia e infestados de insetos e febres sem conta.''
As adversidades foram tamanhas que o padre Antônio Vieira, ferrenho opositor dessas expedições, se rendeu ao esforço daqueles homens ao se encontrar com remanescentes da tropa depois de mais de um ano de sofrimentos, diminuídos em mais da metade de seus homens. ''E, os que restavam, mais pareciam desenterrados do que vivos'', escreveu o padre, em carta datada de 1657. Depois de dez anos padecendo no território amazônico, os bandeirantes voltaram a São Paulo sem terem descoberto o esperado Eldorado.
Ricardo Maranhão e Vallandro Keating se ocuparam, em Caminhos da Conquista, dos primeiros 300 anos de história brasileira, por se tratar de um período de formação. ''Não havia, até então, a idéia de uma nação consolidada'', explica Maranhão. ''Foi a partir do século 19, quando quase todo o território já estava conquistado, que começa uma nova fase da História do Brasil.''
Esse período, cobrindo dois séculos, vai ser tema de dois futuros livros que a dupla já se prepara para produzir. ''É o momento das expedições científicas, em que acontecem as verdadeiras descobertas do País: a flora, a fauna e os diversos tipos de população.''
Alguns Heróis
CUNHAMBEBE: cacique de uma aldeia na região de Angra dos Reis, no Rio, durante o século 16. Chefe supremo da Confederação dos Tamoios, reuniu índios de várias tribos para lutar, com os franceses, contra os portugueses.
PADRE JOSÉ DE ANCHIETA: desestabilizou a força dos tamoios com extrema habilidade ao estabelecer um tratamento mais adequado dos índios: em vez de escravizá-los, ele buscava a negociação.
RAPOSO TAVARES: bandeirante responsável, no século 17, por importantes expedições e pelo extermínio considerável da população indígena. Comandou o desbravamento de imensas regiões jamais trilhadas pelo homem branco, correspondendo ao interior de São Paulo, Paraná, Paraguai, Bolívia, andes peruanos, Amazônia, Pará, Tocantins, Goiás e Minas Gerais.
JERÔNIMO DE ALBUQUERQUE: expulsou os franceses do Maranhão. Teve, ao menos, 34 filhos com várias mulheres e ganhou o apelido de ''Adão Pernambucano''.
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