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sábado, 24 de maio de 2008

A FORMAÇÃO DOS GRUPOS SOCIAIS EM SARTRE

A FORMAÇÃO DOS GRUPOS SOCIAIS EM SARTRE

Rogério Andrade Bettoni

Orientadora: Profª Ms. Maria José Netto Andrade

Resumo: Após a sistematização e elucidação de conceitos relacionados à individualidade humana,
presentes na obra "O ser e o nada" (1943), o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980)
dedicou seus estudos à análise do que seria a sociabilidade e o movimento da História. Em sua
obra "Crítica da Razão Dialética" (1960), Sartre afirma que o ser humano, dominado pela materialidade
circundante (Prático-Inerte), desenvolve seus projetos a partir da ação individual, ou práxis, o
princípio motor de todo o movimento dialético da realidade. A partir desta mesma práxis e de um
objeto comum percebido em outros indivíduos, formam-se os grupos sociais, com o sentimento
compartilhado de revolta contra o Prático-Inerte. O que pretende-se neste texto é fazer um percurso
pela obra de Sartre na busca dos elementos que norteiam esta análise: como os grupos sociais se
formam e se organizam, como se dissolvem ou se institucionalizam. Toma-se então como referência
principal para este trabalho a obra "Critique of dialectical reason, book 2".
Palavras-chave: Existencialismo. Sociabilidade. Grupos Sociais
Introdução
entre as contradições mais
destacadas da atualidade,
podemos citar a que se refere
à compreensão das relações que
envolvem o indivíduo enquanto inserido
na sociedade. Tomando como
base o existencialismo sartreano,
percebe-se que esta é uma questão
que perpassa todo o seu pensamento
filosófico, de O Ser e o Nada à Crítica
da Razão Dialética, sem excluir, é
claro, seus ensaios e obras de cunho
onto-fenomenológico, e ainda os romances
e peças de teatro. Segundo
Sartre, o homem é um ser que se
encontra injustificadamente inserido
no mundo, onde se projeta como liberdade
em situação, em direção ao
futuro. De acordo com o desenrolar
de sua existência, ele se constrói;
porém, a sua existência possui relações
inerentes e indubitáveis, verificadas
fenomenologicamente: ao estar-
no-mundo, o homem é automaticamente
forçado, em sua práxis, a se
relacionar com as coisas, com os
Outros, consigo mesmo e principalmente
com as instituições. Esta é
uma relação indissolúvel e que, segundo
Sartre, se dá de forma dialética.
Ora, se estamos inseridos no mundo
e nele nos movemos no âmbito de
uma liberdade absoluta, isso significa
também uma responsabilidade absoluta
por nossos atos. Se o homem,
pela liberdade e responsabilidade,
possui uma constante exigência em
fazer seu projeto de ser, esta mesma
D
68 BETTONI, Rogério A e ANDRADE, Maria José.Netto, A Formação dos Grupos Sociais em Sartre
Revista Eletrônica Print by UFSJ
Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 67-75, jul. 2002
liberdade e responsabilidade lançam
o indivíduo em direção à sociedade,
em direção ao palco onde se desenrolam
as suas relações com os Outros,
mediadas, nesse sentido, pela
materialidade circundante.
A partir desta inexorável relação do
homem com o mundo no qual está
inserido é que se formam os grupos
sociais, objeto de estudo da presente
ocupação. Na Crítica da Razão Dialética,
Sartre não só afirma que a
dialética é o princípio motor que possibilita
qualquer atividade humana e
social, mas procura também estabelecer
a inteligibilidade da formação e
da desintegração dos grupos sociais.
Para tal, ele estuda inicialmente grupos
efêmeros, que se formam e se
dissolvem com facilidade, passando
gradativamente ao estudo de grupos
fundamentais da sociedade. Por motivos
de espaço, nossa análise
quanto as questões que permeiam a
estrutura social sartreana se dará na
tentativa de buscar o que há de fundamental
na constituição de sua estrutura
condutora. Nesse sentido,
cabe ressaltar a importância da apresentação
de conceitos básicos da
sociabilidade em Sartre, indispensáveis
à compreensão da Crítica da
Razão Dialética. Tais conceitos passam
a ser explicitados
agora.
Relações Humanas e Materialidade
De acordo com indicações já presentes
em O Ser e o Nada, o fundamento
da ação humana é encontrado
na necessidade, a qual obriga o sujeito
a instaurar a sua primeira relação
com a objetividade. A necessidade
não é simplesmente um estado de
falta ou deficiência, mas um estado
de dependência do homem frente ao
mundo em que vive: o homem é lançado
no mundo e dependente dele.
Sendo assim, a necessidade é característica
específica do homem,
marcando tanto a sua relação com as
coisas quanto com os Outros, numa
reciprocidade.
A reciprocidade, por sua vez, sendo
uma relação humana fundamental,
consiste no reconhecimento do Outro
tanto como sujeito e práxis como
também um meio para alcançar uma
finalidade da qual eu também sou um
meio1. As relações humanas, como
mediadoras da materialidade e mediadas
por ela, se encontram no campo
da reciprocidade, que é também a
condição de possibilidade para qualquer
agrupamento humano. Tais relações
estão presentes, segundo Sartre,
em qualquer momento da História,
seja qual for o conteúdo que possuam
ou em qual contexto estejam
inseridas2. Porém, só se dão a conhecer
pela mediação de um terceiro
elemento que, excluído desta relação,
a percebe como tal.
Mas as relações humanas, enquanto
realidade concreta, muitas vezes se
1 Cf. MORAVIA, Sergio. Sartre. Lisboa:
Edições 70, 1985, p. 106.
2 SARTRE, Jean-Paul. Critique of dialectical
reason, v. 1: theory of practical ensembles.
Translation: Alan Scheridan-Smith. New
York: Verso, 1991, p.200.
69 BETTONI, Rogério A e ANDRADE, Maria José.Netto, A Formação dos Grupos Sociais em Sartre
Revista Eletrônica Print by UFSJ
Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 67-75, jul. 2002
configuram como antagônicas e negativas,
perpassadas pela escassez
objetiva de bens que é causadora da
hostilidade entre os homens: a raridade.
Enquanto realidade de fato, a
raridade é um desequilíbrio entre a
quantidade de bens naturais e a
quantidade de seres em necessidade.
Mas ela também se expressa
socialmente como a relação primeira
e universal que o homem possui
tanto com a materialidade que o circunda
quanto com os homens entre
si. Na luta para vencer a escassez
podemos encontrar, então, o fundamento
de toda e qualquer relação
social conflituosa e de reciprocidade
entre os homens.
Mas a partir de quê e de onde se
configuram as relações de necessidade,
reciprocidade e escassez entre
os homens? Nada menos do que na
materialidade, no campo do Prático-
Inerte, um mundo objetivo que o homem,
ao nascer, encontra pronto e
fixado por ações produzidas antes da
sua existência. Nesse sentido, o Prático-
Inerte é o fundamento não só da
mudança como também da servidão
e opressão entre os homens. A realidade
material constitui uma "ameaça"
que paira constantemente sobre todas
as ações e iniciativas humanas.
Para que o homem construa sua essência,
ele tem necessidade do Prático-
Inerte que, ao mesmo tempo em
que se mostra como limite à ação
humana, age como força propulsora,
capaz de levar os indivíduos a se
reunirem em grupos para vencê-lo.
Nesse sentido, podemos observar
que os conceitos explicitados acima
não somente estão interligados e
concomitantes, mas são também a
base que nos possibilitará compreender
a teoria dos grupos no pensamento
de Sartre.
Grupos Sociais: A Possibilidade
Dialética de Formação,
Organização, Dissolvição e
Institucionalização
Apesar de lançado no mundo onde o
homem está por construir o seu ser e
a sua essência, dominado pelo Prático-
Inerte e mantendo relações fundamentais
com a materialidade e
com os Outros, o homem possui características
que são, com efeito, a
possibilidade dialética de sua mudança
e da mudança da materialidade,
mudança esta impressa por sua práxis:
como sujeito cultural, o homem
"tem a possibilidade de viver ou de
realizar uma cultura dialética que o
distancia e o liberta da própria inércia
material e natural"3. E como sujeito
histórico ele tem ainda a possibilidade
de efetuar uma autêntica "inversão
do campo da prática inerte"4.
Somente levando em conta tais fatos
é que podemos entender como os
grupos sociais se formam e se estruturam.
O grupo nada mais é do que uma
prática ativa e intencional de sujeitos
humanos reunidos num conjunto. Diz
Sartre que
(...) the necessity of the group is not
3 MORAVIA, Sergio. Op. Cit., p. 109.
4 Ibidem, p.109.
70 BETTONI, Rogério A e ANDRADE, Maria José.Netto, A Formação dos Grupos Sociais em Sartre
Revista Eletrônica Print by UFSJ
Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 67-75, jul. 2002
present a priori in a gathering. (...)
Through its serial unity (...) the gathering
furnishes the elementary conditions
of the possibility that its members
should constitute a group.56
Numa situação constituída pelo conjunto
dos homens e das coisas, os
homens estabelecem relações de
reciprocidade e de entendimento,
formando uma simples comunidade
hostil. O modo de ser destes indivíduos
congregados apenas por relações
formais (a espera de um ônibus
ou as compras do mercado, por
exemplo) é definido por Sartre como
serial. Na série, a relação entre os
indivíduos não é capaz de levar a
cabo uma iniciativa em comum. Mas
é a partir desta mesma serialidade, e
dentro dela, que os grupos se formam,
quando o livre exercício da
práxis inicia uma luta para vencer, na
série, o que lhe foi imposto pelo
Prático-Inerte. Vejamos esta questão
por outro ângulo.
Segundo Sartre, a práxis do indivíduo
é o que fundamenta a História humana
ao mesmo tempo em que se
constitui no fator básico capaz de
determinar as ações dos grupos humanos:
it is praxis which creates the group,
and which maintains it and introduces
its first internal changes to it. In the
5 SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p.345. "(...) a
necessidade do grupo não se encontra a priori
numa reunião. (...) Através de sua unidade serial
(...) a reunião fornece as condições elementares da
possibilidade de que seus membros constituam um
grupo." (Tradução livre).
6
moment of the praxis of organisation
and antecipation, it is the group which
guarantees that every separate action
is a common action or, to put it differently,
it is the group as a reality which
produces the unity of the common
praxis.7
O grupo, assim, surge a partir de uma
relação espontânea contra a vida
serial e se apresenta como uma organização
livre de indivíduos, a qual
se constitui como "negação" do coletivo
na medida em que é uma agregação
forçada pela situação dada, e
contra ela. Sartre argumenta ainda
que a consciência de um grupo se
forma porque cada integrante capta a
sua condição e a dos demais como
vistas por consciências alheias para
quem esse conjunto de pessoas
existe como objeto de observação8.
Assim, essa seria a forma mais elementar
do grupo, caracterizada por
ele como grupo-em-fusão: nasce com
base numa estrutura material dada
(um bairro, por exemplo) e a partir da
necessidade ou de um perigo comum,
ao qual reage com uma prática
comum.
7 Ibidem, p. 418. "é a práxis que cria o grupo, o
mantém e introduz nele sua primeira mudança
interna. No momento da práxis de organização e
expectativa, é o grupo que garante que cada ação
separada seja uma ação comum ou, em outras
palavras, é o grupo como uma realidade que produz
a unidade da práxis comum". (Tradução livre)
8 Cf. PERDIGÃO, Paulo. Existência e liberdade.
Porto Alegre: L & PM, 1995, p. 207-13. Sartre fala
ainda da impossibilidade de um grupo existir como
"Ser-coletivo", pois os integrantes de um grupo,
vistos por um terceiro excluído, podem se sentir
como "os mesmos", mas nunca como "consciência
coletiva", como queria Marx. Apesar de agrupadas,
as consciências continuam isoladas umas das
outras, na subjetividade de cada indivíduo.
71 BETTONI, Rogério A e ANDRADE, Maria José.Netto, A Formação dos Grupos Sociais em Sartre
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Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 67-75, jul. 2002
No grupo, a práxis individual redescobre
a sua capacidade de agir de
acordo com uma finalidade, que
sempre está ligada a um determinado
incidir sobre a realidade. Os indivíduos
tornam-se membros de uma intersubjetividade,
onde todos reconhecem
o Outro como um "mesmo", e
com ele desenvolvem uma relação de
reciprocidade imediata. "É o comportamento
de uma multidão percorrida
por uma vontade de ação comum"
9, onde todos visam uma solução
a partir de um perigo exterior,
uma ameaça que paira sobre todos.
O grupo, apesar de motivado por esta
práxis grupal, não pode existir como
um "Ser-concreto", algo fixo e permanente,
pois a liberdade aqui agrupada
não possui nada de concreto
que estabeleça o grupo em bases
definitivas de existência. Uma vez
conquistado o fim comum, o grupo
sofre uma ameaça de dissolução: ele
se dispersa enquanto práxis comum
e cada integrante volta a sentir-se em
práxis individual. Para conservar-se
em atividade, o grupo deve lançar-se
em novos projetos.
Segundo Sérgio Moravia, Sartre possui
um mérito que é o de ter analisado
cuidadosamente as estruturas, os
atos formais e invariáveis através dos
quais o grupo-em-fusão procura permanecer
como tal, não se dissolvendo
na série novamente10. O risco de
dissolução provém do seguinte fato:
extinta a pressão-motivação exterior
9 MORAVIA, Sergio. Op. Cit., p. 111.
10 Cf. Ibidem, p.112.
à ação do grupo, extingue-se a evidência
de uma práxis comum. Desta
forma, para impedir que o grupo se
dissocie em novas práticas individuais,
propõe-se a si mesmo como um
fim para seus membros, constituindose
em novas formas de grupo, sendo
a primeira delas o grupo juramentado.
Os indivíduos, neste caso, mantém
sua reciprocidade não mais através
de uma "solicitação concreta e
real"11, mas na base de um ato formal
de "juramento". O grupo, assim, tende
a definir e controlar a prática individual
no quadro de uma prática coletiva.
O juramento não deixa de ser um
exercício de livre escolha dos indivíduos.
Porém, segundo Sartre,
we must be careful not to confuse this
with a social contract. (...) The group
tries to make itself its own tool against
the seriality which threatens to dissolve
it; it creates a factitious inertia to protect
it against the threats of the practico-
inert.12
Mas não basta apenas a palavra
dada pelos indivíduos de que o grupo
não se afetará pelo juramento. O
grupo agora tende a novas exigências
e, para isso, necessita de estrutura,
de organização interna, onde passa
de grupo juramentado a grupo
11 Ibidem, p. 112.
12 SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 420-21. "devemos
tomar cuidado para não confundi-lo com
um contrato social. (...) O grupo tenta fazer de si
mesmo sua própria ferramenta contra a serialidade
que ameaça dissolvê-lo; ele cria uma inércia factícia
para o proteger contra as ameaças do Prático-
Inerte". (Tradução livre).
72 BETTONI, Rogério A e ANDRADE, Maria José.Netto, A Formação dos Grupos Sociais em Sartre
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Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 67-75, jul. 2002
organizado. A palavra "organização",
aqui, designa tanto a ação interna
pela qual o grupo define suas estruturas13
quanto o grupo em si mesmo
enquanto uma atividade estruturada
no campo prático, seja na matéria
trabalhada ou em outros grupos.
So, whether or not a pledge was really
made, the organisation of the group
becomes the immediate objective. (...)
And the unity of the group is nowhere
but in everyone, as a pledge.14
Este é o grupo organizado que, por
um lado, vê nos sujeitos livres o seu
próprio meio de existência mas, por
outro lado, vê também um obstáculo
à sua unidade.
Após descobrir na materialidade as
exigências a serem trabalhadas, o
grupo se desdobra em várias ocupações,
onde tarefas são distribuídas
entre seus membros que agora passam
a cumprir múltiplas práxis individuais.
As ações passam a ser mutuamente
necessárias umas às outras,
e a práxis comum só pode ocorrer
por causa das práxis individuais que
a integram, ou seja, cada membro
compreende que a sua função é ne-
13 Ao falar em estrutura, neste momento da Crítica,
Sartre empreende discussão acirrada com o estruturalista
francês Claude Lévi-Strauss, levantando
questões no seu pensamento que seriam contraditórias.
Para um melhor esclarecimento do antagonismo
entre Sartre e os estruturalistas, conferir
DOSSE, François. História do Estruturalismo.
Campinas: Ensaio, 1994. 2v.
14 SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 443. "Então, se
um juramento foi ou não realmente feito, a organização
do grupo se torna seu objetivo imediato. (...)
E a unidade do grupo não está em nenhum lugar,
mas em cada indivíduo, como um juramento".
(Tradução livre)
cessária às funções dos outros membros,
e vice-versa.
Organization, then, is both the discovery
of practical exigencies in the object
and a distribution of tasks amongst individuals
on the basis of this dialectical
discovery15.
Ora, dissolvido em inúmeras práticas
individuais, o grupo agora encontrase
disperso no espaço e no tempo:
seus membros estão distanciados e
misturados com os não-agrupados,
sofrendo a força dispersiva do Prático-
Inerte. Sua unidade, neste sentido,
é novamente ameaçada: a impossibilidade
de alçar-se como Serconcreto
exige um trabalho de reorganização
incessante de sua própria
organização interna para combater a
desorganização que está por vir. Novamente
é preciso resistir à alteridade
e à inércia que começam a corroer
o grupo e, para isso, o grupo passa a
agir sempre com maior intensidade
sobre si mesmo, e transforma sua
práxis em processo.
A análise de Sartre a respeito do grupo
organizado e de seu perigo imediato
de dissolução é exaustiva, sendo
impossível esgotar suas possibilidades
no presente texto. O perigo de
dissolução, como dito acima, está no
simples fato de que, na distribuição
de tarefas entre os indivíduos e seus
determinados subgrupos, cada indivíduo
está constantemente ameaça-
15 Ibidem, p. 446. "A organização, então é tanto a
descoberta de exigências práticas no objeto quanto
uma distribuição de tarefas entre os indivíduos na
base desta descoberta dialética". (Tradução livre)
73 BETTONI, Rogério A e ANDRADE, Maria José.Netto, A Formação dos Grupos Sociais em Sartre
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Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 67-75, jul. 2002
do pela materialidade e pela serialidade
que, por vezes, o impede de
agir com vistas ao fim comum do
grupo. É preciso que o grupo incorpore
novas medidas, mais poderosas
inclusive que sua organização. Por
isso a práxis de cada indivíduo se
torna um processo visando um fim
comum, o de tornar o grupo organizado
uma instituição.16 O processo
seria algo como o reverso da práxis:
as estruturas inertes da serialidade
assumem cada vez um poder maior e
as ações dos indivíduos vão se tornando
cada vez mais passivas. Em
outras palavras, quando a práxis comum
vira processo, surge o grupo
institucionalizado.
Ao transformar-se em instituição, o
indivíduo deixa de ser essencial e
passa a ser um elemento que é pura
e simplesmente submetido às finalidades
gerais da instituição. Neste
caso, o grupo passa a exercer um
certo controle sobre os indivíduos,
assinalando assim a afirmação da
hierarquia, da burocracia e da autoridade.
Esta nova forma de grupo se
torna, assim, um sistema fechado e
estático, identificável pela força de
seus códigos de conduta, suas leis,
sua estrutura estabilizada, "e também
pela redução da práxis individual a
limites severos"17. O poder, assim, é
eliminado dos indivíduos e entregue a
um único ente, que Sartre chama de
soberano.
É inevitável deixar de falar aqui no
16 Cf. Ibidem, p. 576-663.
17 PERDIGÃO, Paulo. Op. Cit., p.240.
processo de burocratização que se
inicia nesta fase do grupo institucionalizado.
18 A burocracia é um sistema
hierárquico no qual os elementos
inferiores são inertes instrumentos
manipulados pelo elemento superior,
o soberano, que imprime ordens
tentando encarar como sua a práxis
de todos. Nesse sentido, pode-se
dizer que o grupo alcança a sua última
possibilidade de existência, a de
agir como organização em um Estado.
E o Estado, por sua vez, como
todo soberano, supõe estar atuando
como práxis comum quando, na verdade,
lida somente com os indivíduos
em série. A instituição da soberania
destrói todo o resíduo de integração
social. E esta estabilidade se dá claramente
através de uma prática e em
torno de um sujeito que já não estão
no grupo e nem a ele pertencem: "os
indivíduos sentem-se unificados apenas
através de algo que se encontra
no seu exterior."19 Instituída para
combater a tendência do grupo para
a dispersão e serialização, a soberania
acaba, assim, por acentuar esse
processo e mesmo por personificar
no seu individualismo a atomização
geral do grupo institucionalizado.
Apesar de ter sido originado na e
pela série, e talvez exatamente por
este fato, o grupo mostra não ter
cortado todos os laços com a mesma.
Da mesma forma que o homem está
condenado a ser livre, o grupo é condenado
a uma inexorável degradação,
e volta a cair na serialidade,
onde a liberdade e a práxis retorna
18 Cf. SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p.655-63.
19 MORAVIA, Sergio. Op. Cit., p.114.
74 BETTONI, Rogério A e ANDRADE, Maria José.Netto, A Formação dos Grupos Sociais em Sartre
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Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 67-75, jul. 2002
ao seu seio: os próprios indivíduos.
Considerações Finais
Após a análise que fizemos até aqui
é impossível negar que, na estrutura
geral da Crítica, algumas das antigas
idéias de Sartre tenham permanecido,
ainda que sob formas parcialmente
novas. Assim como em O Ser
e o Nada, o pensamento sartreano
continua a se estruturar de forma
dialética: por um lado, existe uma
subjetividade que se configura em
ação, em liberdade e projeto; por
outro lado existe uma objetividade
que é obstáculo, inércia e alienação.
A prática, nesse sentido, é dirigida
pelos homens contra as estruturas e
as coisas. Até mesmo o Prático-
Inerte, que se configura como ameaça,
parece realmente ter a possibilidade
de condicionar o homem, e não
apenas metaforicamente, o que implica
uma revisão da liberdade e responsabilidade
absoluta expressa em
O Ser e o Nada.
Tendo em vista tudo o que foi falado
acima, é possível perceber também
que, ao contrário do que possa se
dizer à primeira vista, Sartre não
rompe, nesta nova linha de pensamento,
com sua ontologia fenomenológica.
Ao se propor um estudo
sobre as estruturas da sociedade, o
que Sartre procurou foi simplesmente
tentar fundar no próprio homem uma
Antropologia de cunho existencialhumanista.
Revendo pensadores
como Engels e Marx, Sartre incorpora
algumas das teses fundamentais do
marxismo, dando a este um caráter
existencial interpretado por muitos
como o que faltava ao marxismo.
À guisa de conclusão, podemos afirmar
que a estrutura social sartreana,
desta forma, se dá de maneira cíclica:
o grupo se origina na série, evolui
em combate com o Prático-Inerte e
se petrifica na série, onde servirá de
alicerce e sustentáculo à novas práxis
que tentarão exterminar esta
mesma serialidade. Assim como o
Para-si se constata como uma totalização-
em-curso, ou seja, um processo
em constante desenvolvimento
pela busca de algo concreto, o grupo,
buscando solidez e permanência,
encontra-se também num incessante
processo de totalização que jamais
se efetiva em definitivo. "O ser humano
é condenado a ser livre".
Referências Bibliográficas
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Belo Horizonte: UFMG, 1998. (Tese de Mestrado)
BORNHEIN, Gerd A. Sartre: metafísica e existencialismo. São Paulo: Perspectiva, 1984.
DOSSE, François. História do estruturalismo. Campinas: Ensaio, 1994. 2v.
LAING, R. D., COOPER, D. G. Razão e violência: uma década da filosofia de Sartre
(1950-1960). Petrópolis, RJ: Vozes, 1976.
75 BETTONI, Rogério A e ANDRADE, Maria José.Netto, A Formação dos Grupos Sociais em Sartre
Revista Eletrônica Print by UFSJ
Metavnoia. São João del-Rei, n. 4, p. 67-75, jul. 2002
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PERDIGÃO, Paulo. Existência e liberdade: uma introdução à filosofia de Sartre. Porto
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