Museu de Folclore Rossini Tavares
- Catalogação dos Acervos -
Dalva Soares Bolognini
Em novembro de 2006 foi concluída por Raízes Cultura Brasileira Ltda. EPP, em prestação de serviços que durou sete meses, a catalogação e preparação para armazenamento de todos os acervos (objetos, livros / publicações, documentos / fotografias) do Museu de Folclore Rossini Tavares de Lima, da Associação Brasileira de Folclore. Este trabalho foi executado para o Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura, da Prefeitura do Município de São Paulo, visando o cumprimento de liminar da justiça paulista.
No entanto, para se entender as razões, exigências e limitações do trabalho realizado, é preciso retroceder no tempo e buscar explicações na história do próprio museu e dos acervos acumulados.
Em 1947, por iniciativa de alunos da cadeira de Folclore Nacional, dirigida pelo Professor Rossini Tavares de Lima, foi formado um pequeno museu nas dependências do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade, do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Anos depois, em 1953, quando a cidade se preparava para as comemorações do seu IV Centenário de fundação, o Prof. Rossini foi convidado a coordenar as pesquisas e a coleta de objetos destinados à Exposição Interamericana de Artes e Técnicas Populares, montada em agosto de 1954 na grande marquise do Parque Ibirapuera recém-inaugurado.
O acervo do museu criado no Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade é incluído nessa exposição, enriquecida por doações, coleções estrangeiras, empréstimos e coleta estimulada em diversas regiões brasileiras pela Comissão Nacional de Folclore do IBECC - Instituto Brasileiro de Educação Ciência e Cultura / UNESCO. Depois de algum tempo, apenas com material brasileiro, transforma-se em Exposição de Artes e Técnicas Populares, mais tarde Museu de Artes e Técnicas Populares, indo ocupar o andar superior do Pavilhão “Lucas Nogueira Garcez”, conhecido como Pavilhão de História (atual OCA), no próprio Parque Ibirapuera.
Em 1960 é constituída a Associação Brasileira de Folclore, que dá corpo jurídico e responde pelo acervo do Museu de Artes e Tradições Populares, depois Museu de Folclore de São Paulo. Com o falecimento de Rossini Tavares de Lima, em 1987, o Museu é renomeado em sua homenagem.
Sucederam-se, desde 1987, várias diretorias formadas por ex-alunos dos muitos cursos ministrados no famoso endereço do Parque Ibirapuera, que tinham internalizado o conceito fundamental do estudo de Folclore preconizado pelo ilustre estudioso e pensador Rossini Tavares de Lima. Ele afirmava ser a exposição do Museu de Folclore o retrato dos costumes da sociedade brasileira no contexto da cultura espontânea. Em poucas palavras: os objetos expostos estavam em uso nas casas brasileiras, já que resultantes da pesquisa de campo realizada antes por ele próprio e depois pelos seus seguidores.
Contudo, após alguns anos, o espaço ocupado pelo Museu no Parque Ibirapuera foi apresentando problemas de conservação e manutenção. O enorme prédio de 12.000 m2 construído na década de 1950 era utilizado, simultaneamente, por cessão municipal, pelo Museu de Folclore, que ocupava os dois andares superiores e pelo Museu de Aeronáutica, da Fundação Santos Dumont, que tinha suas instalações no andar térreo e no subsolo. Nenhuma das duas instituições jamais dispôs de recursos financeiros e humanos para a manutenção da estrutura, das redes elétrica e hidráulica e demais exigências de atualização. Por essa razão, o edifício acabou sendo interditado pelo CONTRU - Departamento de Controle do Uso de Imóveis, devido à ausência de segurança que representava para o público usuário.
Foi nessa ocasião (meados da década de 1990) que a diretoria em exercício solicitou pela primeira vez a colaboração institucional da Cultura em seus âmbitos federal, estadual e municipal, obtendo deles laudos que confirmavam a importância cultural do acervo. No entanto, as autoridades nada podiam fazer sem alterar a forma jurídica dos seus responsáveis – até hoje uma associação de caráter cultural com finalidade não lucrativa.
Em 1999, outro desafio se impôs: Tratava-se de ceder o espaço nobre, mas decadente, do Parque Ibirapuera e adaptar as necessidades de exposição do acervo de objetos aos pequeníssimos compartimentos da Casa do Sertanista, no bairro do Caxingui, um dos espaços museológicos de valor histórico da Prefeitura de São Paulo. Várias adaptações tiveram de ser realizadas para abrigar o acervo nesse imóvel tombado, que possibilitaram a reinauguração do Museu de Folclore em fevereiro de 2000.
Por outro lado, também em 1999, teve início no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – MAE/USP, o Curso de Especialização em Museologia, que me dispus a freqüentar visando levar adiante um projeto de revitalização do Museu de Folclore, ao qual já havia dedicado mais de dez anos de trabalho voluntário. Era uma época bastante favorável em termos de obtenção de recursos financeiros, condição lamentavelmente incompreendida pelos diretores e membros da Associação Brasileira de Folclore, que não conseguiram ver no modelo de gestão proposto a oportunidade de tratar a instituição tecnicamente, salvando seus acervos do desaparecimento.
Dois anos depois, ao final de um Simpósio promovido pelo Curso de Especialização em Museologia em sua segunda turma, moções foram enviadas às instâncias municipal, estadual e federal da Cultura, demonstrando a preocupação que os profissionais de museus sempre dispensaram ao acervo em questão.
A transferência dos acervos do edifício no Parque Ibirapuera não se deu apenas para a Casa do Sertanista. Uma parte do acervo (cerca de mil objetos) foi selecionada para fazer parte do módulo Arte Popular da Exposição comemorativa dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil, em 2000, que teve curadoria de Emanuel Araújo, ele próprio encarregando-se de providenciar a conservação dos objetos nos laboratórios da Pinacoteca do Estado de São Paulo, sob sua direção naquele momento. Terminado o período da exposição, essa coleção foi fracionada para participar de outras mostras no Brasil e no exterior, sem contar com local definido para sua guarda. Finalmente, as caixas de madeira utilizadas no transporte contendo os objetos reunidos foram abrigadas em armazém de propriedade particular, situado no bairro do Ipiranga, local cedido por amizade à Associação Brasileira de Folclore, de onde só foram retiradas em janeiro de 2006 para cumprimento da liminar que resultou nos serviços prestados por nossa empresa.
Em abril de 2004, em função de denúncia registrada no Ministério Público de São Paulo, o Departamento de Patrimônio Histórico - DPH, por intermédio da Divisão de Iconografia e Museus – DIM, acolheu em suas dependências um seminário público sobre Folclore e Cultura Popular, ministrado pela Coordenadora Geral e pela Diretora Técnica do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP/MINC. Tal encontro visava tornar claras as premissas para a existência, catalogação e conservação de um acervo dessa natureza. Em conseqüência desse seminário algumas reuniões se realizaram entre os representantes do poder público municipal e os da Associação Brasileira de Folclore, que colocavam a exigência de um novo local para transferência e remontagem da exposição do Museu.
Em 2005 o Ministério Público Estadual solicitou e obteve uma liminar judicial que estabeleceu prazo para a retirada dos acervos da Casa do Sertanista e sua subseqüente catalogação, primeiramente para que fossem conhecidas as reais quantidades dos acervos de objetos e livros, e posteriormente para a determinação de um espaço para onde pudessem ser transferidos e armazenados em segurança.
Os serviços de catalogação
No início de 2006, tendo concluído o Caderno Técnico que lhe serviria de base, a Secretaria Municipal de Cultura, por meio do Departamento do Patrimônio Histórico – DPH, colocou em pregão público a proposta de “contratação de empresa especializada em Museologia, visando os serviços de transferência de local e catalogação, de todos os bens móveis que integram o Museu de Folclore ‘Rossini Tavares de Lima’ ”.
Os bens móveis objeto da contratação compreendiam: acervo de objetos de cultura popular brasileira; biblioteca; documentos textuais e imagéticos; mobiliário; equipamentos e utensílios. Os serviços de transferência desses bens da Casa do Sertanista e do depósito no Ipiranga para o Depósito Central da Secretaria Municipal de Cultura, no bairro do Canindé, incluíam: higienização mecânica; embalagem e acondicionamento dos itens em invólucros adequados ao seu armazenamento – plástico bolha ou TNT, conforme sua natureza.
O Caderno Técnico especificava, para as quantidades estimadas dos vários tipos de acervos, a execução de serviços de avaliação e registro do estado físico, registro fotográfico individualizado dos objetos, os materiais a serem utilizados no acondicionamento, formato e campos indispensáveis para a organização de base de dados informatizada no formato MDB.
Findo o pregão e sendo nossa empresa selecionada para realizar o trabalho, logo nos deparamos com a primeira necessidade de alteração na logística do nosso planejamento: o prazo fixado pela liminar da justiça nos impunha uma velocidade de trabalho tal que tornou impossível fazer a seleção dos objetos, tanto em função do suporte quanto da qualidade, antes que fossem embalados para o transporte.
O Caderno Técnico especificava, para as quantidades estimadas dos vários tipos de acervos, a execução de serviços de avaliação e registro do estado físico, registro fotográfico individualizado dos objetos, os materiais a serem utilizados no acondicionamento, formato e campos indispensáveis para a organização de base de dados informatizada no formato MDB.
Findo o pregão e sendo nossa empresa selecionada para realizar o trabalho, logo nos deparamos com a primeira necessidade de alteração na logística do nosso planejamento: o prazo fixado pela liminar da justiça nos impunha uma velocidade de trabalho tal que tornou impossível fazer a seleção dos objetos, tanto em função do suporte quanto da qualidade, antes que fossem embalados para o transporte.
Tínhamos apenas 10 dias para liberar a Casa do Sertanista, portanto, a solução adotada foi contratar com a empresa transportadora o embalamento de todos os ítens, transportá-los e depois, no galpão onde trabalhamos, fazer a seleção qualitativa por lote marcado com o número da sala de origem. Assim, as fotografias tiradas na fase de diagnóstico foram de grande utilidade na seleção dos materiais predominantes, o que, embora não sendo o ideal, facilitou a compreensão e a organização dos lotes para o processo de higienização, dimensionamento, fotografação e catalogação.
Nossa área de trabalho, no Depósito Central da Secretaria Municipal de Cultura, no bairro do Canindé, foi organizada no centro de um galpão de 300 m2, onde instalamos dois computadores, um deles portátil, encarregado de transportar dados para a base central em nosso escritório, onde eram processados. Utilizando principalmente o mobiliário do próprio Museu, também nessa área estavam as grandes mesas destinadas à organização dos objetos e o estúdio fotográfico de fundo infinito montado com laminado plástico branco, destinado principalmente aos pequenos objetos que formavam a maioria do acervo. Em volta ficaram os lotes de caixas de papelão marcadas conforme seu local de origem.
Os serviços foram executados por equipe constituída especialmente para o projeto: quatro Especialistas em Museologia, um Especialista em Informática e uma Ajudante Geral treinada para higienização dos objetos. A etapa final era o embalamento e o acondicionamento nas caixas de papelão, de estrutura e formato padronizados, previamente numeradas, que na seqüência eram acomodadas nas prateleiras fixas existentes em uma das paredes do galpão. Os 60 objetos de dimensões diversificadas, maiores do que as caixas padronizadas receberam capas de TNT preto, costuradas de acordo com seu formato e etiqueta plástica com o número de tombo.
Nem o espaço nem os 150 dias previstos foram suficientes, pois as quantidades, principalmente de objetos e de livros, revelaram-se muito maiores do que podíamos prever. Tivemos, mais uma vez, que encontrar novos caminhos, sempre em conjunto com o cliente. O espaço foi aumentado com corte e desdobramento da grande estanteria fixa e o prazo foi estendido para mais 60 dias, possibilitando, assim, receber e processar o conteúdo das caixas de madeira transferidas já em janeiro de 2006 para o mesmo endereço.
Os serviços foram fornecidos de acordo com as exigências do Caderno Técnico, compreendendo 3 cópias do banco de dados, sendo 2 impressas e 1 digital que incluiu o Manual de Acervo.
Considerações finais
Os serviços prestados de avaliação qualitativa, higienização, catalogação em banco de dados provido de imagem, embalamento individualizado e acondicionamento para guarda do acervo, resultou nos seguintes números:
• OBJETOS - 5.433
• BIBLIOTECA - 9.758
• DOCUMENTOS - 7.545
• MÓVEIS/UTENSÍLIOS - 400
• LIVROS NOVOS - 1.488
Quanto à classificação qualitativa, os objetos apresentam o quadro abaixo:
• de importante valor patrimonial em condições de exposição: 1.199 = 27%
• danificados passíveis de restauro: 2.678 = 61%
• danificados passíveis de substituição: 2 = % insignificante
• danificadas dispensáveis (descarte): 436 = 10%
O descarte de objetos seguiu critérios que consideraram não apenas a sua condição física, como ausência de partes ou danos irreversíveis, mas também de repetição no acervo e/ou possibilidade de reposição. Cada lote de objetos descartados fez parte de um relatório específico, com autorização assinada pelo Diretor do Museu. Todos os objetos descartados constam do banco de dados com sua respectiva ilustração fotográfica.
Nossa conclusão sobre os acervos:
• Têm grande importância cultural, porém, devido à ausência de pesquisas por cerca de duas décadas, tornam-se referência histórica de Cultura Popular Brasileira e não mais Folclore no seu conceito original.
• Menos de 10% dos objetos (467) são explicitamente datados; mesmo assim é importante ressaltar que a década de 1970 foi a maior geradora de acervo datado: 172 objetos.
• A título de sugestão, indicamos o estudo de recorte patrimonial deste acervo, considerando redução da abrangência geográfica, restringindo-a, por exemplo, aos limites da Grande São Paulo, cuja população é síntese da brasileira.
• Recomendamos o processamento da documentação exaustiva do acervo de objetos, que conta, nos acervos bibliográfico e documental, com material informativo suficiente para uma pesquisa satisfatória.
• Dentre os objetos do acervo, destacamos alguns grupos temáticos que detêm qualidade e podem, em curto prazo, ser selecionados e preparados para exposições de interesse geral:
> Instrumentos musicais – 170 peças
> Utensílios de cozinha/mesa, em barro cozido – 102 peças
> Esculturas religiosas (todos os materiais e tendências) – 141 peças
> Ex-votos em vários materiais e técnicas – 369 peças
> Rendas, bordados e outras técnicas artesanais – 250 peças (acabadas e mostras)
> Trajes, adereços e acessórios de festas/folguedos – 144 peças
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[1] - A autora é graduada em Comunicação Social / Propaganda e Publicidade pela ESPM; formada em Folclore Brasileiro e pós graduada pelo Curso de Especialização em Museologia MAE/USP; sócia-gerente da Raizes Cultura Brasileira Ltda. EPP, São Paulo.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Museu de Folclore Rossini Tavares - Catalogação dos Acervos -
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