Mário Filho escreveu o clássico da literatura esportiva brasileira
‘O negro no futebol brasileiro‘ contribuiu para a história da sociedade e da cultura brasileiras
Um encontro de gigantes: o jornalista Mário Filho e o maior jogador de todos os tempos, Pelé
Lançado em 1947, “O negro no futebol brasileiro” mantém-se até hoje como o maior clássico da literatura esportiva brasileira. A história da ascensão social do negro no Brasil através do esporte, e a importância deste fato na formação da cultura do país, começou a ser forjado cinco anos antes, quando Mário Filho criou uma coluna em "O Globo" chamada “Da primeira fila”. Através dela, investigava a história do futebol carioca. Como até então jornais, revistas e documentos de clubes excluíam os negros, ele recorreu a entrevistas e conversas com torcedores, jogadores e dirigentes.
Mário Filho detectou em Leônidas da Silva, por exemplo, a síntese do caráter nacional, do talento do negro brasileiro no futebol. O jogador encantava os torcedores através de seus malabarismos e lances brilhantes nos gramados. Com a derrota na Copa de 1950, porém, o racismo voltou. O negro era novamente o atravancador do desenvolvimento da “raça brasileira”. Mário Filho percebeu o alto nível de exigência que os torcedores cultivavam com os jogadores e saiu em defesa deles: “Quando o brasileiro acusou Barbosa, Juvenal e Bigode, acusou-se a si mesmo”.
Em trecho do prefácio do livro, o sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre diz que o livro é uma “contribuição valiosa para a história da sociedade e da cultura brasileiras na sua transição da fase predominantemente rural para a predominantemente urbana”.
De acordo com o livro “Com brasileiro, não há quem possa”, de Fátima Antunes, Mário Filho “chegou assim à consciência de que o futebol tinha características de um verdadeiro ritual, ressaltando a força simbólica desse esporte que se consolidava, à época de seus estudos, como esporte de massa”.
Além de “O negro no futebol brasileiro”, Mário Filho escreveu mais nove livros: “Bonecas” (1927), “Copa Rio Branco” (1932), “Histórias do Flamengo” (1934), “Romance do Football” (1949), “Senhorita” (1950), “Copa do Mundo de 62” (1962), “Viagem em torno de Pelé” (1964), “O rosto” (1965) e “Infância de Portinari” (1966).
Há 100 anos nascia Mário Filho, o ‘Criador das multidões’
Jornalista revolucionou o futebol brasileiro na escrita e na prática e idealizou o desfile das escolas de samba
Imagine o futebol sem o Maracanã e a expressão Fla-Flu como um termo esquecido no tempo, que certa vez designou com ironia uma combinado formado pelos dois times. Pense também nas torcidas sem algazarra e o colorido das bandeiras. Ou então no carnaval sem o desfile das escolas de samba. Pois bem. Se não fosse o jornalista Mário Filho (03/06/1908 - 17/09/1966), cujo centenário se celebra nesta terça-feira, estes símbolos da cultura de massa brasileira ou não existiriam ou levariam tempos para surgir.
Do mesmo jeito que transformou o futebol e o carnaval, Mário Filho mudou para sempre a linguagem do jornalismo esportivo brasileiro, primeiro no jornal "A Manhã", depois na "Crítica". Os textos rebuscados ganharam a linguagem vibrante das arquibancadas, aproximando os leitores de seus clubes. Jogadores, que até então posavam para as fotos eretos e de terno e gravata passaram a ser clicados em ação.
Em "O Globo", o jornalista promoveu os jogos da Liga Carioca ao premiar os torcedores mais animados e criativos. As arquibancadas viraram uma grande festa, tomadas por bandeiras, fogos de artifício e bandas carnavalescas. Quando o desafio da vez era atrair as atenções para a partida entre Flamengo e Flumiense, na Liga Carioca de 1933, o flamenguista não declarado se lembrou de uma seleção carioca formada às pressas, na década de 20, por jogadores dos dois clubes, o que irritou torcedores de outros times. O combinado foi jocosamente batizado de escrete Fla-Flu. Desta vez, a rivalidade entre os dois era eternamente abreviada. O jornalista também lutou pela profissionalização do futebol e semeou o acirramento entre paulistas e cariocas ao incentivar a criação do Torneio Rio-São Paulo, em 1950.
Paralelamente ao jornal "O Globo" o empresário Mário Filho criou um diário próprio, o "Mundo Esportivo", que durou menos de um ano, mas proporcionou a criação do que anos mais tarde seria conhecido como “Maior espetáculo da Terra”. Sem campeonato para cobrir, um repórter do jornal sugeriu a realização de um concurso entre as escolas de samba da cidade. A partir de 1930 o carnaval nunca mais seria o mesmo.
Caberia ao irmão, o dramaturgo Nelson Rodrigues (23/08/1912 - 21/12/1980), definir Mário Filho como “o criador das multidões”.
03/06/08 - 11h17 - Atualizado em 03/06/08 - 11h28
'Mário Filho merecia que o velassem multidões imortais'
Frase de Nelson Rodrigues retrata a luta do irmão pela construção do Maracanã, onde, para o dramaturgo, ele deveria ter sido enterrado
Defensor da construção do Maracanã, Mário Filho foi imortalizado: o estádio ganhou o seu nome
Faltavam três anos para a Copa do Mundo de 1950, e o Brasil ainda não tinha um estádio da grandeza da competição. Pacaembu, em São Paulo, e São Januário, no Rio, não chegavam a comportar 40 mil torcedores. Eis que o jornalista Mário Filho entrava em campo para liderar uma campanha entusiástica a favor da construção de um novo estádio na então capital federal.
A obra tornou-se prioridade após uma série de reportagens comandadas pelo jornalista. A questão passou a ser o local. Foi travada uma batalha entre dois lados. Os que defendiam a área abandonada do antigo Derby Club, no Maracanã, liderados por Mário Filho; e os favoráveis ao bairro de Jacarepaguá, cooptados pelo inflamado vereador Carlos Lacerda. Venceu o primeiro, após votação na Câmara dos Vereadores e o apoio da prefeitur________________________________________
A criação do projeto se arrastou e a burocracia atravancou o início das obras. Políticos começaram a ir contra o estádio quando Mário Filho divulgou em seu "Jornal dos Sports" uma pesquisa de opinião em que 87% dos entrevistados eram favoráveis ao estádio novo. Finalmente, no dia 2 de agosto, o Maracanã começou a ser erguido por cerca de 200 operários. Após temores de que não houvesse tempo para a conclusão antes da Copa do Mundo, o gigante de 155 mil lugares ficou pronto no dia 12 de junho de 1950, 12 dias antes do início da competição.
Quando o jornalista morreu, vítima de um ataque cardíaco em 1966, Nelson Rodrigues lutou até que o Maracanã recebesse o nome do irmão. E ainda cunhou mais uma de suas célebres frases: “O maior estádio do mundo tem o seu nome. Pena que não o tenham enterrado lá. Com o Maracanã por túmulo, Mário Filho merecia que o velassem multidões imortais”.
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