Dom Aloísio e a igreja do diálogo
Dom Aloísio Lorscheider foi um pensador fértil. Das coisas da igreja e da vida. Parte desse pensamento está agora disponível no livro Mantenha as Lâmpadas Acesas
Conversas com dom Aloísio resultaram no livro Mantenha as Lâmpadas Acesas que será lançado nesta segunda-feira
Afastar jovens homossexuais dos seminários não é a saída para lidar com a homossexualidade na Igreja Católica. O caminho, segundo dom Aloísio Lorscheider, é o diálogo. "Tem que discutir, mesmo que não se chegue a uma conclusão. Na discussão aparece muita luz. Na igreja há sempre um receio de discutir os problemas". A reflexão faz parte de uma das respostas do cardeal que estão no livro Mantenha as Lâmpadas Acesas - revisitando o caminho, recriando a caminhada. A publicação será lançada nesta segunda-feira,16, no auditório da Prainha, às 19 horas.
O livro, primeiro documento publicado após o fenecimento de dom Aloísio (ele morreu em 23 de dezembro do ano passado), é a edição de uma grande conversa mantida entre o ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e 19 pessoas interessadas em discutir questões ligadas à Igreja Católica. Os teólogos Carlos Tursi e Geraldo Frencken são os organizadores da obra. Eles integram uma espécie de colegiado chamado "O Grupo", criado em 2002, composto por leigos e religiosos. O Grupo se encontrou dez vezes com o dom Aloísio, entre 25 de janeiro e 15 de novembro de 2005, em Fortaleza, para manhãs de bate-papo, de perguntas, indagações e respostas.
Dos encontros ficou registrado, principalmente, uma reflexão do cardeal franciscano sobre a necessidade de a Igreja Católica ser preferencialmente "dialógica" e "atualizadora". Há explícito, nas palavras do bispo, uma crítica ao retorno centralizador de Roma pelas mãos do papa João Paulo II e o então cardeal Joseph Ratinzinger. O religioso brasileiro, no último ano de vida, reafirmava sua extrema decepção com o sufocamento dos avanços conquistados no Concílio Vaticano II.
"Nós de fato achamos que nestes últimos anos voltamos para a era pré-conciliar. E há toda uma tendência nesta linha. E, às vezes, a gente sente isto até na celebração da eucaristia. Há uma tendência de querer voltar a celebrar até de costas para o povo. O motivo que se alega para tanto é que o celebrante estaria se dirigindo a Deus e que o outro modo (conciliar) seria muito horizontal", reclamava dom Aloísio.
O recrudescimento à linha de atuação "vertical" de Roma (pós João XXIII e Paulo VI), segundo Lorscheider, trouxeram de volta o erro da supervalorização da igreja como estrutura e do culto aos títulos honoríficos. O retorno ao "institucionalismo" em desfavor do incentivo ao protagonismo dos leigos. A conquista da "colegialidade episcopal", fruto do Concílio Vaticano II, também sofreu com a romanização. "O papa Paulo VI promovia muito o colegiado. Já João Paulo II foi mais centralizador, o que quer dizer que freou a liberdade de ação das conferências episcopais", observava o ex-presidente da Conferência Episcopal Latino-Americano (Celam).
No livro-entrevista, dom Aloísio não poupa críticas a pelo menos três documentos da igreja, ao medo de Roma em permitir o ensino da teologia a leigos (principalmente leigas) e à formação precária de padres no Brasil. "Predomina muito mais o perfil tradicional, o padre que sempre existiu. Não existe, por exemplo, um perfil mais missionário. Existe o padre de sacristia, sacramentalista. Sacerdócio como fermento de massa, sal para o mundo, luz da terra, este se vê pouco presente".
SERVIÇO:
O lançamento do livro Mantenha as Lâmpadas Acesas - revisitando caminho, recriando a caminhada (Edições UFC) será às 19 horas, no auditório do Seminário da Prainha (entrada pela Tenente Benévolo). No lançamento, o livro custará R$ 15,00. A partir de terça-feira, R$ 20,00 nas livrarias Vozes, Paulinas, Paulus, Ave Maria, UFC e Livro Técnico. Contato:
ogrupo2@yahoo.com.br e 9984 7854 / 3263 2730
E-Mais
O Concílio Vaticano II, XXI Concílio Ecumênico da Igreja católica, foi aberto sob o papado de João XXIII, no dia 11 de outubro de 1962, e terminado sob o papado de Paulo VI, em 8 de dezembro de 1965. João XXIII sustenta a idéia-mestra de aggiornamento. Palavra italiana que quer dizer atualizar. O papa desejava uma igreja atualizada no mundo moderno. A Teologia da Libertação veio depois do Vaticano II.
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