1922: Transmissão da primeira peça radiofônica
M: – Jack! Jack, o que está acontecendo?
J: – As lâmpadas se apagaram
M: – Onde você está?
J: – Aqui!
M: – Onde? Não consigo te achar!
Mary e Jack estão soterrados numa mina de carvão.
M: – Por que as lâmpadas se apagaram de repente?
J: – Sei lá! Com certeza vão acender de novo.
M: – Você acha?
Danger (Perigo) é o nome dessa peça radiofônica de Richard Hughes, levada ao ar, pela primeira vez, em janeiro de 1924, em Londres. O rádio estava apenas engatinhando, mas já se havia descoberto o potencial dramático dessa nova mídia.
Disputa pelo pioneirismo
Há uma controvérsia sobre qual foi de fato a primeira peça radiofônica da história. Uns dizem que foi O Lobo, transmitida no dia 3 de agosto de 1922, nos Estados Unidos. Outros consideram que foi Perigo, peça da qual foram realizadas, posteriormente, várias novas produções.
O jovem casal Mary e Jack e o velho Bax estão numa velha mina, semi-soterrados:
M: Isto é água! A mina está sendo inundada, vamos morrer afogados! Jack!
B: Queria ter tanta fé em Deus como esses mineiros. Droga, assim seria mais fácil morrer.
M: Jack, Jack, não! Não, não quero morrer. Não quero! Não quero! Não quero!
B: Precisamos todos acreditar, minha jovem!
Quando Perigo foi levada ao ar pela primeira vez, em 1924, os atores falavam ao vivo, no estúdio da rádio, vestindo inclusive figurinos. Na época, não existia gravação. Logo as peças radiofônicas alcançaram enorme popularidade.
No fim da década de 30 tornaram-se uma nova forma de entretenimento. Artistas de renome, como o alemão Bertolt Brecht, escreveram obras especialmente para o rádio. Os temas prediletos, ao lado de adaptações de livros famosos, eram as histórias dramáticas, como a da peça Perigo.
(Um estrondo.)
M: Jack!
J: Meu Deus, Mary!
M: Jack, Jack, o que foi?
(Estrondo, ruído de desabamento, tosse.)
M: A poeira, estou com falta de ar. Não posso mais respirar. Jack!
J: Pare de berrar. Como é que você pode respirar se fica berrando?
M: Jack!
J: Agüente, Mary. Não aconteceu nada. Ninguém ficou ferido.
Entre literatura e teatro
Nas décadas de 40 e 50, a peça radiofônica amadureceu como gênero artístico. Foi o período áureo das novelas de rádio brasileiras, por exemplo. A dramaturgia era tradicional, a linguagem radiofônica não se distanciava da literatura nem do teatro.
A revolução estética ocorreu em meados da década de 60, com o surgimento das peças de rádio experimentais, não mais baseadas numa estrutura linear de narração. O rádio deixou de contar estórias e começou a explorar o potencial dramático da reprodução sonora.
Na Alemanha, o chamado "Hörspiel" (tradução literal: peça para ser ouvida) abriu um novo campo de experiências, ligadas à música eletrônica que surgiu na década de 50, desenvolvendo-se paralelamente ao gênero dramático.
O conceito de "arte acústica" define hoje a convergência de diversas tendências, que têm em comum o fato de estarem explorando as possibilidades artísticas e dramáticas do som e voz falada. Por exemplo: as paisagens sonoras (soundscapes), a ecologia sonora, a poesia acústica (e radiofônica), as instalações sonoras, música concreta e eletrônica.
Narrativas emocionantes são padrão
Ao lado de todas essas novas tendências, o rádio continua criando peças mais tradicionais, que contam estórias narrativas e provocam emoções, como o medo, alegria, saudade, tristeza, enfim, tudo o que a imaginação radiofônica foi capaz de suscitar no ouvinte, desde a década de 20.
J: Alguém está batendo!
(Batidas.)
M: A água já chegou até a minha cintura, Jack!
J: Estamos aqui! Aqui! Aqui em baixo. Vão nos salvar, talvez.
B: Socorro! Depressa, seus desgraçados. Vai, depressa, estamos nos afogando! Depressa, depressa!!
(Abre-se uma saída.)
M: Conseguimos.
Resgatadores: Segurem a corda aí em baixo.
B: Segurem!
(Os resgatadores puxam Mary e Jack para cima.)
Resgatadores: Agora o terceiro. Segurem aí em baixo!
(Silêncio.)
J: Bax! Bax! ... Bax?
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